Review – Uncharted 4: A Thief’s End – Grandeza em pequenos começos

10 de maio de 2016

A série Uncharted se iniciou de forma simples em 2007 com um jogo que nos apresentou ao carismático Nathan Drake. No entanto, foi apenas no segundo título da franquia que a desenvolvedora Naughty Dog impressionou o mundo com uma experiência explosiva e cenas cinematográficas, dose que pudemos repetir no terceiro jogo. Porém agora é chegada a hora da conclusão da história de um dos personagens mais queridos do PlayStation em Uncharted 4: A Thief’s End. Nathan Drake retorna para sua última aventura, na qual a desenvolvedora entrega com louvor uma tocante despedida ao herói.

A história de A Thief’s End começa algum tempo depois de Uncharted 3, agora com Nathan casado com Elena Fisher, aposentado de sua vida de caçador de tesouros e vivendo de forma pacata em um trabalho normal. Antes disso, no entanto, temos a chance de conhecer seu irmão, Sam Drake, através de duas cenas, uma sendo um flashback de sua infância. Esta é a primeira aparição de Sam na franquia, e o jogo mostra um relacionamento que se torna o foco do game. Após ter sido dado como morto, Sam retorna 15 anos depois com um grande problema em suas mãos pedindo a ajuda de seu irmão.

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Tendo prometido a si mesmo que não voltaria à vida de perigos e tesouros, Nathan se vê em um conflito interno mas sabe que não pode deixar o irmão sozinho e parte em mais uma aventura, desta vez em busca do tesouro do famoso pirata Henry Avery. A narrativa foi sempre um dos focos na série, e aqui é onde percebemos uma das inspirações em The Last of Us, outro jogo da Naughty Dog. Apesar de não ter o peso e seriedade da história de Joel e Ellie, A Thief’s End é o mais sério da franquia trazendo uma história sentimental, mais pessoal e de certa forma mais importante que de jogos anteriores.

A Thief’s End é o mais sério da franquia, trazendo uma história sentimental, mais pessoal e de certa forma mais importante que de jogos anteriores

Nos outros jogos sempre tivemos um padrão: há um tesouro a ser buscado, e Nathan e seus amigos vão atrás enquanto enfrentam um inimigo rico com um exército infindável. Esta é a fórmula novamente, porém com um maior foco no relacionamento e diálogos entre os personagens, criando uma jornada envolvente e com momentos marcantes gerados não só pelas incríveis cenas de ação costumeiras da franquia, mas também de momentos emocionais. Os personagens agem de forma realista, com expressões em que é possível saber o que estão pensando sem precisarem dizer uma palavra.

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A perfeita retratação de forma humana faz com que possamos nos identificar com os personagens através de suas crenças e desilusões, como no óbvio desânimo de Nathan sobre sua vida normal em um simples olhar dado a Elena. É aqui que vemos que uma história é sentida não só nas palavras, mas também em gestos. Em momentos com personagens como Sully e Elena, é possível sentir o peso das aventuras anteriores de Nathan, nos fazendo lembrar a importância desses relacionamentos. Porém mais difícil do que trazer a lembrança clara desses momentos passados, é apresentar um personagem inteiramente novo e ainda dar a chance de nos identificarmos com ele enquanto entendemos sua motivação. Nesse ponto o jogo acerta em cheio quando nos faz viver memórias do passado em que Nathan e Sam estavam juntos. Como em The Last of Us, temos em Uncharted 4 diálogos opcionais e itens no cenário que dão mais contexto à história e vida dos personagens.

Como já era de se esperar, o jogo inteiro é recheado de cenas de ação fantásticas, o que é uma das marcas da franquia, onde Nathan normalmente se machuca e luta bastante para sobreviver. São do tipo de momentos que ficam pra sempre na memória dos jogadores. Para ajudar nesse sentido, o game conta com uma apresentação impressionante, com o melhor visual que já vi em um jogo de console da atual geração. Assim como o pulo de qualidade visual de Uncharted: Drake’s Fortune para Uncharted 2: Among Thieves foi enorme, porém na mesma plataforma, o pulo agora é grandioso e deixa qualquer um de boca aberta. São tantos detalhes a mencionar, mas que compensa serem ditos.

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Durante o jogo passamos por cenários na Itália, Escócia, Madagascar e mais. Praticamente todo cenário que se vê é extremamente bem detalhado, com itens espalhados, vegetação realista ou uso perfeito de lama. Tudo é feito nos mínimos detalhes, e conseguir notar tudo é certamente recompensador. Assim como dito em análise técnica da renomada Digital Foundry, site que avalia performance de jogos, Uncharted 4: A Thief’s End é uma obra-prima técnica. As cenas de corte são quase todas renderizadas em tempo real, o que torna mais fácil entrar e sair de trechos de gameplay sem uma transição sequer. Animações e expressões faciais são incrivelmente realistas e naturais, e o melhor, todo esse esplendor visual sem afetar a performance. Não consigo citar um momento sequer em que eu tenha percebido queda de frames.

Como já era de se esperar, o jogo inteiro é recheado de cenas de ação fantásticas

Se ter uma história boa e visual impressionante ainda não são suficientes, o jogo traz o gameplay mais refinado até então na série. A forma é bem semelhante, porém com a inclusão de uma corda com gancho, o que afeta principalmente as escaladas, e o uso de stealth, que pode ser aplicado em praticamente qualquer confronto com inimigos. Mais uma vez, não há como deixar de mencionar a inspiração em The Last of Us, jogo que focava principalmente no uso de stealth. Em Uncharted 4 é possível se esconder em meio ao matagal, embaixo da água ou atrás de coberturas. Um ícone acima dos inimigos mostra se eles estão te vendo ou não, e é possível até marcar inimigos para saber exatamente onde estão e como melhor evitá-los.

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Outras duas novidades são os elementos destrutíveis no cenário, como caixas de madeira que são usadas de cobertura mas são destruídas com tiros ou passando de carro por cima, ou até sacos de areia que são furados com os tiros fazendo a areia escorrer e desfazendo a cobertura. Enquanto outro elemento são áreas mais amplas, dando mais liberdade para estratégias no combate e ás vezes liberdade na exploração. A existência dessas áreas chega a eliminar um pouco a linearidade, embora o foco do game seja a narrativa e um caminho linear inevitável. Todos esses elementos tiram aquela sensação de repetição existente nos games anteriores, onde havia uma parte de exploração e logo depois uma de tiroteio, repetindo essa fórmula até o fim. Aqui, há uma clara variação no gameplay, sendo possível até passar o jogo inteiro apenas na furtividade.

Vale notar ainda a física realista, como por exemplo quando inimigos morrem com seus tiros e reagem apropriadamente dependendo se estão andando ou correndo. O mesmo vale para movimentação da vegetação e itens destrutíveis. Outra grande observação deve ser feita em relação ao comportamento dos aliados em meio ao combate, o que era de certa forma feio em The Last of Us, onde os inimigos ignoravam completamente seus aliados. Em A Thief’s End eles talvez até sejam ignorados, porém isso se torna quase imperceptível, já que eles correm para uma cobertura quando inimigos se aproximam, ou quando não há outro jeito eles até ajudam eliminando o inimigo furtivamente, o que é sempre útil. Eles também chegam a marcar inimigos com escopetas por exemplo. Já a IA dos inimigos não é das melhores, com padrões de busca previsíveis.

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A variação no gameplay se torna ainda maior quando consideramos o uso de veículos em várias partes do jogo. Algumas dessas são as maiores áreas já vistas na série, e estão completamente abertas à exploração. A incrível atenção aos detalhes pode ser bem observada nesses momentos, como ao entrar em um jipe com uma sniper nas costas, Nathan tira ela e coloca ao lado do banco. Ao sair do carro ele pega a arma novamente e coloca nas costas. Ao passar embaixo de uma cachoeira, molhando todos no jipe, os personagens passam a mão no rosto pra tirar a água. São coisas pequenas porém que tornam a experiência mais realista, quase te fazendo esquecer de que tudo aquilo é um jogo.

Uncharted 4: A Thief’s End é uma obra-prima técnica

A trilha sonora não fica para trás e agrada bastante no jogo com toques sempre apropriados a cada momento, além de ótimos efeitos no som de tiros, explosões e os variados sons do jogo. Em termos de dublagem, A Thief’s End conta com performances impecáveis de grandes nomes como Nolan North reprisando seu papel de Nathan Drake, Troy Baker estreando como Sam Drake, Laura Bailey como Nadine Ross e outros. A dublagem em português é competente, porém não impressiona e a melhor opção mais uma vez é a dublagem original. Já a legenda em português infelizmente conta com vários erros de tradução, principalmente quando há o uso de expressões, que acabam sendo traduzidas de forma literal.

O modo multiplayer está novamente presente, e apesar de não ser o foco principal do jogo, ele chega a ser competente e até divertido. Jogadores podem fazer uso de itens místicos que já apareceram na franquia como uma forma de poder do personagem, sendo possível também invocar aliados controlados pela IA do game. O modo abandona a apresentação em 1080p e 30 frames por segundo do single-player para uma forma mais lisa em resolução 900p e rodando a 60 frames por segundo. Ainda assim, fica a sensação de que o multiplayer está presente apenas para atender aos padrões atuais de jogos.

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Em resumo, Uncharted 4: A Thief’s End é tudo o que fãs da série poderiam esperar do último capítulo da história de Nathan Drake. O jogo é o mais pessoal até aqui, e digno da consideração a melhor game da franquia disputando com o fantástico Uncharted 2: Among Thieves. Já em termos técnicos, o novo game é sem igual. O visual impressionante te fará pausar frequentemente para tirar capturas usando o excelente modo foto. O gameplay se inova com o elemento de furtividade, corda com gancho e veículos em áreas amplas, enquanto o final da história traz um fechamento muito satisfatório e até uma surpresa inesperada. É possível até sentir nostalgia com um easter egg no mínimo incrível para aqueles que cresceram com o PlayStation. Uncharted 4: A Thief’s End é a despedida perfeita a Nathan Drake e aos vários outros personagens que passamos a amar a cada novo título lançado, é sem dúvidas um adeus digno para a série.

  • Este review de Uncharted 4: A Thief’s End foi feito no PlayStation 4 com uma cópia do game enviada para nós pela Sony.
A série Uncharted se iniciou de forma simples em 2007 com um jogo que nos apresentou ao carismático Nathan Drake. No entanto, foi apenas no segundo título da franquia que a desenvolvedora Naughty Dog impressionou o mundo com uma experiência explosiva e cenas cinematográficas, dose que pudemos repetir no terceiro jogo. Porém agora é chegada a hora da conclusão da história de um dos personagens mais queridos do PlayStation em Uncharted 4: A Thief's End. Nathan Drake retorna para sua última aventura, na qual a desenvolvedora entrega com louvor uma tocante despedida ao herói. A história de A Thief's End começa algum tempo depois de Uncharted 3, agora com Nathan casado com Elena Fisher, aposentado de sua vida de caçador de tesouros e vivendo de forma pacata em um trabalho normal. Antes disso, no entanto, temos a chance de conhecer seu irmão, Sam Drake, através de duas cenas, uma sendo um flashback de sua infância. Esta é a primeira aparição de Sam na franquia, e o jogo mostra um relacionamento que se torna o foco do game. Após ter sido dado como morto, Sam retorna 15 anos depois com um grande problema em suas mãos pedindo a ajuda de seu irmão. Tendo prometido a si mesmo que não voltaria à vida de perigos e tesouros, Nathan se vê em um conflito interno mas sabe que não pode deixar o irmão sozinho e parte em mais uma aventura, desta vez em busca do tesouro do famoso pirata Henry Avery. A narrativa foi sempre um dos focos na série, e aqui é onde percebemos uma das inspirações em The Last of Us, outro jogo da Naughty Dog. Apesar de não ter o peso e seriedade da história de Joel e Ellie, A Thief's End é o mais sério da franquia trazendo uma história sentimental, mais pessoal e de certa forma mais importante que de jogos anteriores. A Thief’s End é o mais sério da franquia, trazendo uma história sentimental, mais pessoal e de certa forma mais importante que de jogos anteriores Nos outros jogos sempre tivemos um padrão: há um tesouro a ser buscado, e Nathan e seus amigos vão atrás enquanto enfrentam um inimigo rico com um exército infindável. Esta é a fórmula novamente, porém com um maior foco no relacionamento e diálogos entre os personagens, criando uma jornada envolvente e com momentos marcantes gerados não só pelas incríveis cenas de ação costumeiras da franquia, mas também de momentos emocionais. Os personagens agem de forma realista, com expressões em que é possível saber o que estão pensando sem precisarem dizer uma palavra. A perfeita retratação de forma humana faz com que possamos nos identificar com os personagens através de suas crenças e desilusões, como no óbvio desânimo de Nathan sobre sua vida normal em um simples olhar dado a Elena. É aqui que vemos que uma história é sentida não só nas palavras, mas também em gestos. Em momentos com personagens como Sully e Elena, é possível sentir o peso das…

9.6

Fantástico!

Veredito Final

Uncharted 4: A Thief's End é um jogo que certamente será bem lembrado nos anos a seguir. A atenção a detalhes e cuidado para oferecer uma experiência fantástica ao jogador são notáveis, e a Naughty Dog não deixa os fãs na mão. O jogo fecha a história de Nathan Drake de forma coesa com a aventura mais sentimental da franquia. Esta não é simplesmente uma história de um caçador de tesouros em busca de mais uma lenda com promessas de infinitas riquezas, mas sim uma história sobre relacionamentos familiares, de amizade e o conflito ao tentar definir suas prioridades na vida. O gameplay é semelhante ao que já vimos nos outros jogos, porém incrementado com uso de furtividade, corda com gancho, veículos e amplas áreas que diminuem a sensação de linearidade. O gráfico é o mais impressionante já visto em um jogo de console, elevando o patamar e se tornando base de comparação para jogos futuros. Não só a qualidade visual deve ser exaltada, mas também o uso de pequenos e singelos detalhes que fazem o jogador questionar se aquilo é mesmo um jogo. A Thief's End é a grandeza alcançada por pequenos começos, é a forma final de um início singelo de uma série inesquecível.

Nota

9.6

10

Redator da SuperGamePlay, se apaixonou por videogames na primeira vez que jogou Atari. Preza por uma boa história, é fanático por Metal Gear e está sempre em busca de bons jogos indies. Ama consoles, mas também não larga o PC. Tudo o que queria era mais tempo para terminar todos os jogos que gostaria.