Review – Tom Clancy’s The Division – Restaurando a ordem

23 de março de 2016

O nome Tom Clancy tem um peso bibliográfico enorme e as obras do falecido e prolífico autor americano estão sempre aparecendo em games quase todo ano. The Division da Ubisoft é mais um destes e entra para uma coleção que inclui a franquia Rainbow Six, Ghost Recon, Splinter Cell e vários outros. O mais novo game da Ubi não traz o nome de Tom Clancy apenas por enfeite, toda a filosofia do autor está impregnada em cada elemento de The Divison e talvez este é o detalhe que o separa de outros jogos do estilo, para o bem e para o mal.

Nas palavras da sua desenvolvedora, The Divison é várias coisas: um MMO, um RPG, um game de tiro em terceira pessoa, um inovador modo multiplayer cooperativo e competitivo, e muito mais. Porém é preciso adicionar diversos asteriscos às inúmeras siglas e nomenclaturas que o game vem recebendo para que possamos analisá-lo melhor. The Division narra a história de uma epidemia viral que decimou New York. No caos, diversas gangues passaram a dominar a cidade. Para tentar restaurar a ordem e salvar a Manhattan, o governo americano aciona um grupo especial de agentes chamado de “A Divisão”.

Estes agentes são pessoas altamente treinadas, disfarçados de cidadãos comuns, até que são ativados em uma emergência. Você como protagonista, assume o papel de um destes agentes. Os asteriscos que mencionei sobre The Division começam já na tela de criação de personagem, aonde somos apresentados a uma quantidade limitadíssima de customização para os padrões de um MMO ou RPG. Além do sexo, você tem a opção de escolher entre oito rostos, alguns cabelos, tatuagens e cicatrizes. Esta pobreza de opções deixa personagens não só muito parecidos uns com os outros, como também tira um pouco daquela sensação de identidade tão presente em jogos de RPG.

sgp_the_division_review_img_(21)

Ao longo do jogo o personagem pode ser customizado com centenas de roupas como jaquetas, calças, bonés, calçados e cachecóis. Mesmo com a quantidade enorme de opções, personagens ainda continuam muito parecidos. Jaquetas (os itens que mais se destacam no corpo) variam apenas em cores e alguns mínimos detalhes. O mesmo acontece com calças e outros itens. Armaduras, mochilas, luvas e joelheiras, que são responsáveis pelos atributos do personagem, não afetam a aparência.

Apesar de pequenos, estes detalhes começam a colocar os tais asteriscos que mencionei, em siglas como MMO e RPG. Eu particularmente gostaria muito de ver uma diferença visual bem maior entre um personagem recém criado e um personagem level 30 absurdamente poderoso. Tudo isto também pode ser justificado pelo fato do game ser mais preso a realidade (uma característica da “marca” Tom Clancy), então fica difícil comparar The Division com outros jogos que lidam melhor com esta questão de identidade, já que estes geralmente são apoiados pela sua ambientação mais fantasiosa. Mesmo assim ainda acho que seria bem possível encontrar um meio termo.

Além de itens de aparência, armaduras e armas, seu agente da Divisão tem acesso a uma série de habilidades, talentos e vantagens, liberados através da evolução da sua base principal. No universo do jogo, este centro de comando é responsável por auxiliar na solução dos grandes problemas que afetam a cidade: encontrar uma cura para o vírus, restaurar os serviços básicos e proteger a população restante. A base é composta de três alas que são evoluídas através das inúmeras atividades disponíveis no game e cada evolução libera novos habilidades, talentos e vantagens.

sgp_the_division_review_img_(26)

A variedade de habilidades disponíveis para os personagens é excelente. Cada skill conta com três modificações que ainda podem ser associadas a talentos para criar inúmeras estratégias e possibilidades. Isto fica ainda mais ressaltado quando jogado em modo cooperativo, aonde mais uma infinidade de táticas podem ser criadas a cada novo membro adicionado a equipe. A quantidade exorbitante de armas e armaduras (que por si só também podem ter dúzias de diferentes atributos) e o competente sistema de criação de itens, adicionam ainda mais profundidade ao game. Por isto, não é preciso dizer que The Division é movido por loot, a eterna busca por melhores armaduras, melhores armas e melhores atributos.

Para isto, você deverá navegar por quase duas dezenas de bairros na região central de Manhattan que possuem nível de desafio crescente. Bairros são controlados por uma das quatro facções inimigas, que se comportam de formas diferentes. Enquanto os Rioters estão espalhados em grupos pequenos pelo mapa e geralmente atacam com pistolas e tacos, outros como a temida LMB é um grupo muito mais organizado, bem equipado e agressivo, te atacando de todas as formas.

Apesar de comportamentos diferentes, a variedade de inimigos é bem pequena. Cada facção tem seu soldado tradicional, seu sniper, seu médico, seu tanque, alguns loucos de shotgun e chefes que são simplesmente versões mais resistentes de algum destes modelos. A “inteligência” artificial também não é das melhores. Já nas primeiras horas é possível identificar o comportamento de cada tipo de inimigo e até o final do jogo nenhum irá te pegar de surpresa. A única alteração que temos aqui é no aumento da quantidade, em uma tentativa boba de surpreender o jogador e que raramente tem sucesso.

sgp_the_division_review_img_(25)

Inimigos e tiroteios estão presentes em cada uma das centenas de atividades disponíveis no jogo. Em cada bairro você irá enfrentar inimigos patrulhando ruas, outros em missões paralelas e encontros “marcados”, ou em missões principais. Não é preciso dizer que as mais de vinte missões que compõem a história do jogo são destaque, sendo bastante variadas e em localidades extremamente detalhadas e imersivas, que ajudam a aprofundar mais na história e na situação de New York.

The Division te força a seguir uma longa trajetória de missões para concluir o jogo e chegar no nível máximo. Mesmo com missões principais variadas e interessantes, as atividades restantes são sempre as mesmas e esta repetitividade é talvez o maior problema do game. O número de vezes que se realiza uma mesma tarefa é absurdo e após mais de 50 horas de jogo confesso que não estava suportando realizar mais uma pesquisa de vírus, interromper mais um tráfego de armas ou salvar civis capturados novamente. Este problema é acentuado ainda mais pela falta de diversidade de inimigos e pela inteligência artificial não tão inteligente que mencionei acima.

O game não conta com muita variedade nem mesmo nas batalhas contra chefes, aonde a Ubisoft poderia ter sido mais criativa (mesmo limitada a “marca” Tom Clancy). Enfrentamos apenas um inimigo mais resistente, com comportamento semelhante ao padrão, aonde temos que descarregar uma infinidade de balas e tomar mais cuidado para não ser atingido. A única diferença fica por conta do chefe final, que ainda assim não é tão fora do padrão. A esperança é que as “incursões” (as raids do jogo) e novos conteúdos que serão adicionados no futuro possam ajudar a resolver este problema.

sgp_the_division_review_img_(33)

The Division narra uma história interessante e competente, que se inicia de forma intrigante e acelerada, mas que ao longo do tempo enfraquece e conclui de forma frustrante. Após a batalha final ouvimos apenas um comunicado da sua base de operações e uma mensagem na tela informando sobre as atividades que podem ser feitas após zerar. Estas incluem missões diárias e desafios, que são repetições de algumas missões principais com dificuldade elevada. O jogo também te convida a conhecer a Dark Zone, que tratarei separadamente mais abaixo. A Ubisoft promete adicionar mais conteúdo, expandindo este universo e esta história ao longo dos próximos anos. Esta intenção fica clara na forma como o jogo “termina”.

Para aqueles que optarem por mergulhar mais profundamente no mundo de The Division, a história pode ser um pouco mais satisfatória, já que a mesma é contada também através de centenas de colecionáveis espalhados pelo mapa. Mesmo com o exagero na quantidade, a Ubisoft fez um fantástico trabalho com seu conteúdo. As gravações, echos, relatórios e outros colecionáveis acrescentam à história de forma brilhante, te apresentando novos personagens, o sentimento do cidadão comum antes e durante os acontecimentos, a visão de mundo de certos vilões e muito mais. Isto colabora de forma incrível com a imersão, mostrando o clima ameaçador da cidade e o sofrimento da população com o terrível evento.

Outro detalhe que não pode ser ignorado é a qualidade e detalhismo de New York. O trabalho da Ubisoft pode ser comparado até mesmo ao da Rockstar com Grand Theft Auto V. A cidade foi recriada praticamente em escala real e elementos dos cenários são tão bem elaborados que fica fácil imaginar que as cenas que vemos podem ser bastante reais, em um eventual evento destas proporções. De prédios destruídos até as ruas cheias de sacos de lixo e veículos abandonados; dos metrôs repletos de corpos até os grandes prédios com telões que (em vão) avisam a população sobre o vírus, tudo transpira apocalipse e crueldade. Os inúmeros becos, atalhos, áreas elevadas ou subterrâneas, não só refletem com competência a cidade como também servem para criar uma variedade enorme de possibilidades para o combate.

sgp_the_division_review_img_(29)

Podem reclamar o que quiserem dos gráficos não serem próximos ao que foi mostrado no anúncio do jogo na E3 2013. Mas The Division ainda assim é um dos jogos mais belos da atual geração e conta com um detalhismo impressionante. Isto sem contar detalhes como seu personagem fechando portas de carros, neve acumulando nas roupas, vidros quebrando de forma realista, postes de luz se apagando, fachadas e outros milhares de objetos destrutíveis, áreas contaminadas e muito mais.

Porém, a Ubisoft optou por criar um mundo só para você e seu time de amigos. Salvo a poucos locais do mapa, você não verá nenhum outro jogador. Isto reforça a sensação de isolamento (afinal é um mundo pós-apocalíptico) mas ao mesmo tempo remove a possibilidade de criar certos elementos tão divertidos do gênero MMO, como eventos globais (aonde um grupo de jogadores desconhecidos se juntam para enfrentar uma grande ameaça), ou a possibilidade de ajudar um jogador mais fraco ou se maravilhar com o poder destrutivo de um jogador mais poderoso. Isto inclusive não colabora com a história de que você é apenas um de vários agentes da Divisão enviados a cidade para salvá-la.

Um dos únicos lugares aonde você poderá colidir com outros jogadores é na Dark Zone (ou Zona Cega em português). Esta é uma área no centro da cidade totalmente separada e repleta de inimigos poderosos e em grande quantidade. A Dark Zone também tem sua própria economia e pontos de experiência. Mesmo sendo possível se divertir na mesma antes de chegar no nível máximo ou terminar a história, fica claro que a DZ é um conteúdo pós-jogo. Nela é possível encontrar os itens mais poderosos do game e coletar peças para criar armas devastadoras. O único detalhe (e aqui reside o brilhantismo da Dark Zone) é que você só pode utilizar estes itens após extraí-los de helicóptero da área.

Nestas zonas de extração (e também em toda a Dark Zone), outros jogadores – inicialmente passivos – podem resolver te atacar e roubar todos os seus itens. Quem arrisca o confronto é marcado como Rogue e caçado por todos presentes no servidor. Todo este conjunto de elementos gera uma tensão absurda e constante, algo revigorante e diferenciado para o estilo. Mesmo com os problemas iniciais relativos aos benefícios de se tornar Rogue (resolvidos no último patch), a DZ é uma alternativa inteligente ao gameplay da campanha e possivelmente será o elemento favorito da maioria dos jogadores.

sgp_the_division_review_img_(19)

Tanto na Dark Zone quanto no modo campanha encontrei diversos bugs, algo infelizmente tão comum em jogos deste tamanho e em jogos da Ubisoft. A maioria destes problemas porém, eram mais relativos a animações ou gráficos, nada que atrapalhasse o gameplay durante as mais de 70 horas que passei com o game até o momento. O matchmaking funciona de forma competente e você pode encontrar outros jogadores facilmente para realizar missões mais difíceis. Porém, assim como tudo na vida, The Division é melhor aproveitado com amigos e no modo cooperativo todas as qualidades do jogo são exaltadas. O prazer de se enfrentar desafios (e os perigos da Dark Zone) com um grupo de amigos em sintonia é indescritível.

Mesmo com seus problemas e a repetitividade, o gameplay de The Division é incrivelmente competente e viciante. Cada arma tem características próprias e que podem ser sentidas facilmente, habilidades são divertidas e muito bem balanceadas, a precisão e responsividade dos controles é incrível e os sistemas de RPG presentes no jogo são complexos e muito bem executados. Passei horas comparando e testando equipamentos, mudando uma série de atributos para melhorar meu dano por segundo ou meu dano crítico, adicionando modificações nas armas para torná-las mais do meu agrado e até mesmo navegando pela excelente interface de usuário para relembrar a história contada pelas centenas de colecionáveis.

No fim do dia, os problemas de The Division são sombreados pelas suas qualidades. Mesmo carimbado com a marca Tom Clancy e todas as limitações que ela trás (cenários do mundo real, narrativa plausível, foco em armas e armaduras tecnológicas, crise política, etc), mesmo com os diversos asteriscos necessários nas siglas MMO* e RPG* e mesmo com o padrão sem surpresas da Ubisoft para jogos de mundo aberto, ainda assim The Division é absurdamente divertido. Não vejo a hora do fim do dia chegar para conectar com os amigos no chat e juntos passarmos horas tensas na Dark Zone ou realizando missões diárias desafiadoras em busca de armas e itens cada vez mais poderosos. Também não vejo a hora da Ubisoft adicionar novos conteúdos e expandir este universo que claramente terá ainda muitos meses de vida pela frente.

O nome Tom Clancy tem um peso bibliográfico enorme e as obras do falecido e prolífico autor americano estão sempre aparecendo em games quase todo ano. The Division da Ubisoft é mais um destes e entra para uma coleção que inclui a franquia Rainbow Six, Ghost Recon, Splinter Cell e vários outros. O mais novo game da Ubi não traz o nome de Tom Clancy apenas por enfeite, toda a filosofia do autor está impregnada em cada elemento de The Divison e talvez este é o detalhe que o separa de outros jogos do estilo, para o bem e para o mal. Nas palavras da sua desenvolvedora, The Divison é várias coisas: um MMO, um RPG, um game de tiro em terceira pessoa, um inovador modo multiplayer cooperativo e competitivo, e muito mais. Porém é preciso adicionar diversos asteriscos às inúmeras siglas e nomenclaturas que o game vem recebendo para que possamos analisá-lo melhor. The Division narra a história de uma epidemia viral que decimou New York. No caos, diversas gangues passaram a dominar a cidade. Para tentar restaurar a ordem e salvar a Manhattan, o governo americano aciona um grupo especial de agentes chamado de "A Divisão". Estes agentes são pessoas altamente treinadas, disfarçados de cidadãos comuns, até que são ativados em uma emergência. Você como protagonista, assume o papel de um destes agentes. Os asteriscos que mencionei sobre The Division começam já na tela de criação de personagem, aonde somos apresentados a uma quantidade limitadíssima de customização para os padrões de um MMO ou RPG. Além do sexo, você tem a opção de escolher entre oito rostos, alguns cabelos, tatuagens e cicatrizes. Esta pobreza de opções deixa personagens não só muito parecidos uns com os outros, como também tira um pouco daquela sensação de identidade tão presente em jogos de RPG. Ao longo do jogo o personagem pode ser customizado com centenas de roupas como jaquetas, calças, bonés, calçados e cachecóis. Mesmo com a quantidade enorme de opções, personagens ainda continuam muito parecidos. Jaquetas (os itens que mais se destacam no corpo) variam apenas em cores e alguns mínimos detalhes. O mesmo acontece com calças e outros itens. Armaduras, mochilas, luvas e joelheiras, que são responsáveis pelos atributos do personagem, não afetam a aparência. Apesar de pequenos, estes detalhes começam a colocar os tais asteriscos que mencionei, em siglas como MMO e RPG. Eu particularmente gostaria muito de ver uma diferença visual bem maior entre um personagem recém criado e um personagem level 30 absurdamente poderoso. Tudo isto também pode ser justificado pelo fato do game ser mais preso a realidade (uma característica da "marca" Tom Clancy), então fica difícil comparar The Division com outros jogos que lidam melhor com esta questão de identidade, já que estes geralmente são apoiados pela sua ambientação mais fantasiosa. Mesmo assim ainda acho que seria bem possível encontrar um meio termo. Além de itens de aparência, armaduras e armas, seu agente da Divisão tem acesso a uma série de habilidades, talentos e vantagens, liberados através da evolução da sua base principal. No universo do jogo, este centro de…

8

Excelente

Veredito Final

The Division carrega o nome de Tom Clancy (e suas limitações) em todos os seus elementos e este detalhe o separa de outros jogos no estilo, para o bem e para o mal. Vendido pela Ubisoft como um MMO e um RPG, o game de mundo aberto em terceira pessoa consegue ser algo próximo disso, mas as siglas merecem uma série de asteriscos. A customização de personagem é pobre, prejudicando sua identidade. O isolamento em uma instância só sua não permite que certos elementos tão divertidos de outros MMO's sejam explorados. A repetitividade e a falta de inteligência dos inimigos e chefes não colaboram com o longo trajeto que o jogo te força a seguir para chegar no "final". The Division ainda narra uma história que enfraquece ao longo do jogo. Porém, os problemas do game conseguem ser sombreados pelas suas qualidades, como cenários absurdamente detalhados e imersivos, gameplay competente e viciante, uma infinidade de armas, armaduras e habilidades, centenas de possibilidades e estratégias, e a tensão e insanidade da Dark Zone, que se combinam para criar um jogo extremamente divertido, especialmente com os amigos. The Division veio para ficar e se a Ubisoft entregar o que promete para os próximos anos, tenho certeza que ainda terei mais coisas boas para falar.

Nota
8

Co-fundador e editor da SuperGamePlay. Fanático por games, já quebrou diversos controles jogando Decatlhon no Atari e passou incontáveis horas soprando cartuchos de Super Nintendo. Hoje passa o tempo livre em meio a centenas de jogos, dos mais variados estilos e plataformas.