Review – Overwatch – Heróis nunca morrem

2 de junho de 2016

Overwatch é algo tão especial e refinado, que chega a ser difícil entender como a Blizzard conseguiu torná-lo realidade e me fazer apaixonar por um estilo de jogo que jurava estar somente no meu passado. Nascido das cinzas do falecido e gigantesco MMO Titan (que substituiria World of Warcraft), Overwatch é a primeira nova franquia da desenvolvedora em quase duas décadas. Após o longo e incrível sucesso de suas séries de estratégia e RPG, o estúdio resolveu investir em algo completamente fora de seus padrões: um FPS competitivo em arenas, com mais de vinte personagens.

A quantidade de heróis com habilidades diferentes que lutam em busca de um objetivo pode até lembrar o moderninho estilo MOBA, mas Overwatch remete a algo muito mais clássico. Com poucos minutos de jogo fica fácil perceber como o game é inspirado pelo passado dos jogos de tiro em primeira pessoa, enquanto ao mesmo tempo conta com um design moderno, animações espetaculares e uma apresentação simplesmente invejável.

Aqueles que, assim como eu, cresceram com a insanidade e agilidade de Quake, o trabalho em equipe de Team Fortress e a precisão de Half-Life, vão ficar felizes em saber que Overwatch é uma combinação de todos estes elementos, executados com uma qualidade impressionante e que vai muito além do que se espera do estilo. Confesso que jamais me imaginei tão obcecado com um FPS competitivo desde minha adolescência. Como editor da SuperGamePlay, é meu trabalho jogar e conhecer os mais variados estilos, mas todos por aqui sabem que preciso ser arrastado quando é necessário passar algumas horas com Call of Duty, Battlefield, Destiny ou outro shooter moderno.

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Não quero desmerecer a qualidade destes exemplos, mas para mim, Overwatch é diferente. O game da Blizzard é acima de tudo, extremamente divertido. Perdendo ou ganhando uma partida, estou sempre com um sorriso no rosto, me divertindo e me sentindo útil para o meu time. Horas voam pela madrugada, enquanto minha consciência diz: “só mais uma partida”. Esta obsessão com o jogo não é só minha, basta ver o enorme crescimento da comunidade desde o início das etapas de teste do jogo. Só no Reddit, Overwatch já tem uma comunidade maior do que jogos ultra populares como Dota 2. A quantidade absurda de fan arts, dicas, documentos, vídeos e outros conteúdos sendo criados todos os dias por fãs do game é impressionante e vai continuar a crescer ainda mais.

Porque Overwatch tem sido tão bem recebido pela crítica e pelo público? Antes de entrarmos em detalhes, aqui vai um pequeno resumo do jogo: em Overwatch, dois times de seis jogadores se enfrentam em uma dúzia de mapas, com quatro modos principais de jogo. Cada jogador escolhe um entre 21 heróis, que são divididos por classes: Ataque, Defesa, Tanque e Suporte. A ideia principal é formar um time bem equilibrado que possa atacar ou defender com sucesso.

Os modos de jogo são bem tradicionais, envolvendo capturar pontos, segurar objetivos, escoltar uma carga ou uma combinação destes. Cada um dos 21 heróis conta com três ou quatro habilidades diferentes e uma especial. Os 12 mapas são muito bem desenhados, coloridos e belos (bem ao estilo Pixar). Além de serem recheados de caminhos e opções para o ataque e defesa, sendo ao mesmo tempo fáceis de entender. Até aqui nada especial, mas o diferencial de Overwatch começa primeiramente com seus heróis, que fazem deste não só um fantástico jogo, como também um fantástico universo.

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Cada um dos personagens se comporta de forma completamente diferente e exalam carisma em todos os seus elementos. A animação dos mesmos é uma aula de design e basta olhar alguns segundos para seus trejeitos e sua apresentação que fica fácil captar sua personalidade e até o seu estilo de jogo. Do excelente trabalho de voz (e fantástica dublagem em Português do Brasil), até a forma como estes correm, seguram uma arma, ou se expressam durante as partidas, tudo contribui para que você se apaixone rapidamente pelos seus favoritos.

A seriedade de Mercy (um dos suportes do jogo) e a forma como ela diz: “heróis nunca morrem” quando usa seu especial e ressuscita companheiros caídos; a forma como Lúcio balança sua cabeça e ouve sua trilha sonora; o jeito inocente e nerd de D.Va que controla um poderoso mecha e solta pérolas no meio do jogo como “pede para nerfar, noob”; o estilo paterno do Soldado 76 e a forma como Reinhardt demonstra ser o mais experiente do grupo, etc. Eu poderia citar mais uma centena de exemplos do nível de detalhe e cuidado que a Blizzard empregou em cada um.

Existem heróis para todos os gostos e estilos de jogo, mas principalmente, eles fazem com que este seja um game para qualquer um. Seja você um ninja do headshot que passa incontáveis horas com Call of Duty, ou alguém que está voltando ao mundo do FPS após anos sem se envolver muito com o estilo. Overwatch funciona tão bem para qualquer jogador justamente porque consegue te fazer se sentir útil para seu time. Cada modo de jogo comporta uma infinita combinação de heróis para que o se tenha sucesso e cada um desempenha seu papel livre das assustadoras tabelas de pontuação e da tirania de que o melhor é quem mata mais.

De forma muito inteligente a Blizzard reconhece isto com um sistema de pontuação diferenciado. Você ainda consegue ver quantos jogadores matou, quantas vezes morreu ou quanto dano causou. Mas outros jogadores não tem acesso as suas estatísticas, somente no final de cada partida aonde as melhores são mostradas e seus companheiros (e inimigos) podem votar no que mais impressiona. Seja dano causado, pontos de vida recuperados, amigos ressuscitados, dano bloqueado, inimigos eliminados em sequência, quantidade de tempo no objetivo, além de dezenas de outras estatísticas que são amarradas a sua classe, ao seu estilo de jogo e a sua colaboração para a equipe.

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Mesmo perdendo uma partida, a sensação de ser reconhecido com vários votos, por ter curado 50% do dano causado a minha equipe é indescritível e só colabora para que eu possa continuar motivado a jogar. Overwatch ainda vai além, mostrando uma “Jogada da Partida” ao fim de cada combate. Basicamente um replay do melhor momento do jogo para que todos possam admirar, seja uma sequência incrível de eliminações, um tiro certeiro para cancelar o especial de um inimigo ou até mesmo uma ressuscitação em massa para salvar o time nos últimos segundos. Estes clipes são uma experiência social inteligente e de quebra ainda te ajudam a aprimorar seu estilo de jogo ao ver outro companheiro fazendo algo incrível.

Não é preciso dizer que o gameplay de Overwatch é absurdamente refinado, com uma combinação certeira de velocidade, precisão e até um pouquinho de sorte. Jogar com cada personagem é um deleite, mesmo que no começo você se acomode com quatro ou cinco preferidos, experimentar cada um deles e entender seus estilos e comportamentos, fazem parte desta incrível experiência de jogo. Não consigo parar de me impressionar e elogiar a belíssima forma como estes são animados, os efeitos de cada ataque e o fantástico uso de som, que acaba sendo seu principal recurso para identificar ataques inimigos.

Prepare-se para correr quando o arqueiro Hanzo grita “Ryū ga waga teki wo kurau” e libera enormes dragões em sua direção, ou quando Zenyatta diz calmamente: “Experimente a tranquilidade” e libera uma onda de energia que cura todos os companheiros instantaneamente. Os efeitos sonoros estão amarrados a todos os detalhes do gameplay, como o momento em que torres são destruídas, quando um ponto está sendo capturado, ou quando uma carga não está se movendo. Isto nos ajuda a concentrar muito mais no gameplay, nos heróis e nos cenários em si, do que em elementos da interface que muitas  vezes servem só para sobrecarregar a tela, algo tão comum em outros shooters modernos.

As inúmeras etapas de teste antes do lançamento do jogo também permitiram que a Blizzard conseguisse balancear muito bem todos os seus heróis. Mesmo com 21 no elenco é difícil imaginar algum que esteja tão acima ou abaixo dos outros. Com certeza balanceamentos ainda serão necessários no futuro, mas no momento tenho sempre encontrado uma variação incrível de times e combinações. A possibilidade de trocar de herói durante qualquer momento do jogo também é outro elemento que cria uma dinâmica incrível para Overwatch. É possível virar uma partida nos últimos minutos e nada está perdido, nem quando seu time resolve começar com seis heróis de ataque, ignorando suporte e defesa.

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A facilidade como isto é executado também se reflete em toda a interface do jogo. Menus são incrivelmente organizados, rápidos e objetivos (uma das boas heranças vindas de Hearthstone). Partidas são montadas em poucos segundos e jogadores desconectados são substituídos rapidamente. Mesmo durante os segundos de espera para o matchmaking, você está livre para alterar configurações, ver a galeria de heróis e suas customizações, conferir seu perfil e estatísticas, convidar amigos e muito mais. Tudo funciona de forma tão orgânica e rápida que é difícil imaginar como jogadores ainda tem paciência de esperar vários minutos por uma partida em outros jogos. O lançamento do game também aconteceu sem nenhum problema, talvez o ponto mais alto para uma desenvolvedora que sofreu tanto com Diablo 3 e as expansões de World of Warcraft.

Outro elemento mais moderninho do jogo é seu sistema de progressão, tão comum em jogos do estilo atualmente. A cada partida jogadores ganham pontos de experiência e evoluem de nível. A grande diferença aqui é que este sistema não tem nenhum impacto na forma como o game é jogado. A cada nível você ganha uma “loot box” que contém quatro itens cosméticos aleatórios para os heróis. Estes podem ser skins novas, frases diferentes, animações, introduções especiais, ícones e sprays. O XP ganho durante as partidas se acumula em um único montante, independente do herói que você estiver jogando. Isto não só nivela o campo de batalha (ninguém vai ter uma arma mais poderosa que você porque jogou mais tempo) como também promove a troca de heróis e faz com que as derrotas não tenham um impacto negativo tão grande.

Junto ao game, a Blizzard também criou um extenso universo para abrigar seus personagens. Uma wiki oficial conta com centenas de páginas de texto com a história de cada herói, de cada localidade, da formação do esquadrão Overwatch e dos conflitos do passado. Os fantásticos curtas de animação e as diversas comics também aprofundam ainda mais na história e na personalidade de cada herói. Este universo é exposto dentro do jogo na forma de centenas de interações entre personagens antes de uma partida e no incrível nível de detalhe presente em cada cenário, mas infelizmente fica só nisso. A falta de uma campanha single-player (mesmo que fosse pequena) entristece, principalmente pela riqueza e qualidade do universo já criado e pela habilidade da Blizzard com suas histórias.

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Isto não chega a tirar valor do jogo, já que seu modo competitivo é absurdamente refinado e competente, mas infelizmente decepciona. O fato do jogo ser pago, indica que novos heróis, modos de jogo e outras novidades serão todas grátis, por isto ainda não descarto completamente a possibilidade da Blizzard lançar um modo campanha no futuro. Minha principal crítica porém fica com o sistema de loot aleatório, o que torna muito difícil customizar seus personagens favoritos. Este problema é ainda mais acentuado quando você gasta dinheiro de verdade na loja virtual e se depara com a mesma aleatoriedade.

Ressalto que tudo isto são apenas elementos cosméticos e as microtransações aqui não tem impacto nenhum no jogo. Porém, seria muito mais interessante contarmos com uma opção adicional para ganhar moedas que possam ser gastas somente com personagens preferidos. Independente das pequenas críticas, confesso que jamais imaginei que sentiria tanta paixão e obsessão por um FPS competitivo. Overwatch é perfeito em vários sentidos e o mais importante é que o jogo consegue brilhantemente tratar cada jogador com carinho, sem tentar quebrar seu espírito a cada momento. Cada dia que passa, quero mais e mais Overwatch. Não é porque quero ser o melhor, nem porque quero evoluir mais ou liberar itens. Quero mais, porque Overwatch é absurdamente divertido em todos os sentidos.

  • Este review de Overwatch foi feito no PC e PlayStation 4 com uma cópia do game comprada por nós.
Overwatch é algo tão especial e refinado, que chega a ser difícil entender como a Blizzard conseguiu torná-lo realidade e me fazer apaixonar por um estilo de jogo que jurava estar somente no meu passado. Nascido das cinzas do falecido e gigantesco MMO Titan (que substituiria World of Warcraft), Overwatch é a primeira nova franquia da desenvolvedora em quase duas décadas. Após o longo e incrível sucesso de suas séries de estratégia e RPG, o estúdio resolveu investir em algo completamente fora de seus padrões: um FPS competitivo em arenas, com mais de vinte personagens. A quantidade de heróis com habilidades diferentes que lutam em busca de um objetivo pode até lembrar o moderninho estilo MOBA, mas Overwatch remete a algo muito mais clássico. Com poucos minutos de jogo fica fácil perceber como o game é inspirado pelo passado dos jogos de tiro em primeira pessoa, enquanto ao mesmo tempo conta com um design moderno, animações espetaculares e uma apresentação simplesmente invejável. Aqueles que, assim como eu, cresceram com a insanidade e agilidade de Quake, o trabalho em equipe de Team Fortress e a precisão de Half-Life, vão ficar felizes em saber que Overwatch é uma combinação de todos estes elementos, executados com uma qualidade impressionante e que vai muito além do que se espera do estilo. Confesso que jamais me imaginei tão obcecado com um FPS competitivo desde minha adolescência. Como editor da SuperGamePlay, é meu trabalho jogar e conhecer os mais variados estilos, mas todos por aqui sabem que preciso ser arrastado quando é necessário passar algumas horas com Call of Duty, Battlefield, Destiny ou outro shooter moderno. Não quero desmerecer a qualidade destes exemplos, mas para mim, Overwatch é diferente. O game da Blizzard é acima de tudo, extremamente divertido. Perdendo ou ganhando uma partida, estou sempre com um sorriso no rosto, me divertindo e me sentindo útil para o meu time. Horas voam pela madrugada, enquanto minha consciência diz: "só mais uma partida". Esta obsessão com o jogo não é só minha, basta ver o enorme crescimento da comunidade desde o início das etapas de teste do jogo. Só no Reddit, Overwatch já tem uma comunidade maior do que jogos ultra populares como Dota 2. A quantidade absurda de fan arts, dicas, documentos, vídeos e outros conteúdos sendo criados todos os dias por fãs do game é impressionante e vai continuar a crescer ainda mais. Porque Overwatch tem sido tão bem recebido pela crítica e pelo público? Antes de entrarmos em detalhes, aqui vai um pequeno resumo do jogo: em Overwatch, dois times de seis jogadores se enfrentam em uma dúzia de mapas, com quatro modos principais de jogo. Cada jogador escolhe um entre 21 heróis, que são divididos por classes: Ataque, Defesa, Tanque e Suporte. A ideia principal é formar um time bem equilibrado que possa atacar ou defender com sucesso. Os modos de jogo são bem tradicionais, envolvendo capturar pontos, segurar objetivos, escoltar uma carga ou uma combinação destes. Cada um dos 21 heróis conta com três ou quatro habilidades diferentes e uma especial. Os 12…

9.5

Fantástico!

Veredito Final

Overwatch é tão especial por uma série de motivos. A Blizzard conseguiu unir os melhores elementos de shooters clássicos com um design moderno e apresentação simplesmente invejável. O game conta com um conjunto de heróis completamente diferentes que exalam personalidade e carisma durante todos os momentos. Animações, dublagem, gráficos belíssimos e uma edição de áudio brilhante só colaboram para que você se apaixone constantemente por eles. Overwatch não só é um jogo fantástico como também é um fantástico universo e isto pode ser visto nos inúmeros detalhes dos cenários, na interação entre personagens e em todo o material adicional criado pela Blizzard e pela comunidade. Porém, acima de tudo, Overwatch é absurdamente divertido em todos os sentidos e acerta em cheio ao tratar cada jogador e cada estilo de jogo com um carinho e cuidado impressionantes.

Nota
10

Co-fundador e editor da SuperGamePlay. Fanático por games, já quebrou diversos controles jogando Decatlhon no Atari e passou incontáveis horas soprando cartuchos de Super Nintendo. Hoje passa o tempo livre em meio a centenas de jogos, dos mais variados estilos e plataformas.