Review – Mafia 3 – Uma história de vingança e mesmice

19 de outubro de 2016

A primeira tela que a desenvolvedora Hangar 13 nos mostra ao iniciar Mafia 3 é um aviso sobre a sua intenção de se manter fiel ao cenário social do sul dos Estados Unidos da década de sessenta. Enquanto boa parte do país dava seus primeiros passos contra o racismo, o sul ainda mantinha um horrendo preconceito contra negros e outras raças. Este conflito racial, além de um ponto central para a narrativa do game, é apresentado de forma corajosa pela desenvolvedora, que coloca o protagonista Lincoln Clay (e nós jogadores) em diversas situações pesadas, carregadas de racismo e preconceito.

Este retrato fiel da época e a história de vingança de Lincoln, me fizeram torcer constantemente para que Mafia 3 fosse um excelente jogo. Infelizmente, mesmo fazendo inúmeras coisas certas, o game conta com diversos outros problemas que deixam um gosto ruim após as mais de 35 horas de gameplay. Antes de mais nada, vamos a um pequeno resumo: Mafia 3 se passa na cidade de Nova Bordeaux (uma versão de New Orleans) em 1968. Nosso protagonista acaba de voltar da guerra do Vietnã como um soldado condecorado e é recebido pela sua família adotiva que são chefes da máfia negra da cidade.

Após alguns eventos terríveis, Lincoln inicia uma trajetória de vingança contra a máfia italiana que o traiu. O objetivo é simples: eliminar os chefes do crime de cada bairro, reduzindo a influência do poderoso chefão Sal Marcano. O que mais chama a atenção em Mafia 3 é seu roteiro e a forma brilhante como cada personagem é desenvolvido. As atuações, diálogos e cenas de corte são impressionantes, retratando com fidelidade as reações e os trejeitos dos personagens. Por mais que seja uma história “simples” de vingança, o game a executa de forma inteligente, inserindo uma série de nuances, referências a jogos anteriores (Vito!) e te deixando constantemente envolvido com Lincoln e seus carismáticos parceiros.

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Não me lembro da última vez que vi uma narrativa tão bem escrita e executada em um game do estilo e se Mafia 3 fosse somente um filme, seria absolutamente fantástico. Tudo ainda é acompanhado por uma das melhores trilhas sonoras licenciadas dos últimos tempos, com clássicos do rock e jazz tocando constantemente nas três rádios disponíveis. O game ainda acerta em alguns outros pontos, como nos seus três finais diferentes e na inclusão de certas escolhas.

Quando você domina um distrito, o jogo te dá a opção de colocá-lo sob o comando de um dos seus três companheiros no crime. Cada um dos capangas oferece melhorias diferentes (como novas armas e aprimoramentos nos carros) e cabe a você decidir se prefere focar em um só, ou dividir igualmente entre os três. O mais interessante é que estas decisões podem ter consequências, como transformar um dos seus parceiros em inimigos. Por mais simples que seja o detalhe, as escolhas não deixam de ser um diferencial para o gênero de mundo aberto em terceira pessoa.

Seus companheiros também te oferecem alguns associados diferentes, que podem te ajudar com determinadas situações do jogo. Como exemplo, se você estiver sendo perseguido pela polícia, é possível ligar para uma pessoa que cancela as buscas por alguns minutos e você pode fugir tranquilamente. Alguns outros associados são bem úteis, como o que te traz um novo carro, um vendedor de armas em uma van ou até mesmo uma mulher que guarda seu dinheiro em um local seguro. São idéias interessantes, úteis e bem executadas, mas confesso que o tal “cancelamento de buscas da polícia” me incomodou, já que este faz algumas missões ficarem absurdamente fáceis. A polícia jamais me incomodou durante o game.

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Talvez o principal problema de Mafia 3 seja sua repetitividade. Uma vez que você domina o primeiro distrito, já é possível ter uma visão geral de como será o restante do jogo. Em cada bairro, você deve eliminar dois subchefes do crime e para isso é necessário atacar suas organizações criminosas. Estas missões consistem em eliminar alguns inimigos, interrogar alguém importante ou simplesmente destruir contrabando. Quando uma quantidade de dano financeiro é causada, o subchefe da organização aparece e você pode ir eliminá-lo, o que consiste somente em uma outra missão idêntica, com mais inimigos.

Estas atividades se repetem em todos os nove bairros da cidade, sem absolutamente nenhuma variação e isto faz com que Mafia 3 fique extremamente cansativo. Os únicos momentos que é possível notar inteligência no design de missões, é quando o jogo te coloca frente a frente com o chefão de cada bairro. Estas missões são particularmente bastante criativas e diferenciadas, uma pena que todo o trajeto até elas é maçante e repetitivo. Não costumo afirmar isto, mas desta vez acredito que Mafia 3 se beneficiaria se tivesse 10 ou 15 horas a menos de jogo.

O gameplay também não é nada espetacular, na realidade é padrão em excesso. Você passará metade do seu tempo atirando e metade dirigindo (principalmente devido a falta de fast travel). O jogo oferece uma boa mecânica de tiro com cobertura, uma boa variação de armas e até alguns skills que melhoram atributos do protagonista. Os carros também são variados e representam bem a época, mas Mafia 3 não faz nada além do básico. Não existe nenhuma mecânica nova ou diferente e outros jogos, como Grand Theft Auto, já fazem este tipo de gameplay com muito mais competência.

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Para piorar, a inteligência artificial dos inimigos é horrenda e estes podem ser facilmente enganados se você atacar de forma furtiva. Certas situações chegam a ser ridículas, como eliminar um inimigo na frente de outro e este outro nem te notar, ou a polícia te perder em poucos metros. Não senti necessidade nenhuma de trocar de arma e poderia muito bem ter completado o jogo inteiro somente com uma pistola silenciosa ou furtivamente usando as finalizações brutais de Lincoln.

Mafia 3 também não é um jogo bonito. A cidade de Nova Bordeaux é viva e rica em detalhes, com bairros diferenciados e uma bela arquitetura, mas as texturas de baixa qualidade e bizarramente embaçadas deixam a cidade feia, principalmente na luz do dia. O problema é ainda mais aparente no PC e fica claro que o jogo não foi devidamente otimizado, pois mesmo com um hardware poderoso, ainda notei uma performance longe do aceitável (mesmo após o patch que destravou o fps).

Para completar, o jogo ainda conta com um sistema de iluminação absolutamente bugado, com objetos piscando, luz do sol que aparece e desparece do nada, ambientes que ficam escuros ou claros demais de repente e mais uma série de outros detalhes que incomodam bastante. Isto tudo sem falar em texturas aparecendo do nada, carros que não dão partida e os inúmeros “crashes” que tive no PC, algo que tem sido reportado também no PlayStation 4 e Xbox One.

A parte triste é que estes bugs realmente atrapalham o que era para ser um ótimo jogo. Continuei torcendo para que Mafia 3 me surpreendesse ou me fizesse esquecer de seus problemas por dezenas de horas, mas infelizmente isto não aconteceu. Por mais que a história de Lincoln Clay é apresentada com brilhantismo e coragem, com uma tonalidade racial sem precedentes na indústria, o jogo sofre com a repetitividade, gameplay sem diferencial e problemas técnicos. Mafia 3 acerta em inúmeros pontos, mas falha em muitos outros, e estes erros acabam escondendo as suas verdadeiras qualidades.

  • Este review de Mafia 3 foi feito no PC com uma cópia do game comprada por nós no Steam.
A primeira tela que a desenvolvedora Hangar 13 nos mostra ao iniciar Mafia 3 é um aviso sobre a sua intenção de se manter fiel ao cenário social do sul dos Estados Unidos da década de sessenta. Enquanto boa parte do país dava seus primeiros passos contra o racismo, o sul ainda mantinha um horrendo preconceito contra negros e outras raças. Este conflito racial, além de um ponto central para a narrativa do game, é apresentado de forma corajosa pela desenvolvedora, que coloca o protagonista Lincoln Clay (e nós jogadores) em diversas situações pesadas, carregadas de racismo e preconceito. Este retrato fiel da época e a história de vingança de Lincoln, me fizeram torcer constantemente para que Mafia 3 fosse um excelente jogo. Infelizmente, mesmo fazendo inúmeras coisas certas, o game conta com diversos outros problemas que deixam um gosto ruim após as mais de 35 horas de gameplay. Antes de mais nada, vamos a um pequeno resumo: Mafia 3 se passa na cidade de Nova Bordeaux (uma versão de New Orleans) em 1968. Nosso protagonista acaba de voltar da guerra do Vietnã como um soldado condecorado e é recebido pela sua família adotiva que são chefes da máfia negra da cidade. Após alguns eventos terríveis, Lincoln inicia uma trajetória de vingança contra a máfia italiana que o traiu. O objetivo é simples: eliminar os chefes do crime de cada bairro, reduzindo a influência do poderoso chefão Sal Marcano. O que mais chama a atenção em Mafia 3 é seu roteiro e a forma brilhante como cada personagem é desenvolvido. As atuações, diálogos e cenas de corte são impressionantes, retratando com fidelidade as reações e os trejeitos dos personagens. Por mais que seja uma história "simples" de vingança, o game a executa de forma inteligente, inserindo uma série de nuances, referências a jogos anteriores (Vito!) e te deixando constantemente envolvido com Lincoln e seus carismáticos parceiros. Não me lembro da última vez que vi uma narrativa tão bem escrita e executada em um game do estilo e se Mafia 3 fosse somente um filme, seria absolutamente fantástico. Tudo ainda é acompanhado por uma das melhores trilhas sonoras licenciadas dos últimos tempos, com clássicos do rock e jazz tocando constantemente nas três rádios disponíveis. O game ainda acerta em alguns outros pontos, como nos seus três finais diferentes e na inclusão de certas escolhas. Quando você domina um distrito, o jogo te dá a opção de colocá-lo sob o comando de um dos seus três companheiros no crime. Cada um dos capangas oferece melhorias diferentes (como novas armas e aprimoramentos nos carros) e cabe a você decidir se prefere focar em um só, ou dividir igualmente entre os três. O mais interessante é que estas decisões podem ter consequências, como transformar um dos seus parceiros em inimigos. Por mais simples que seja o detalhe, as escolhas não deixam de ser um diferencial para o gênero de mundo aberto em terceira pessoa. Seus companheiros também te oferecem alguns associados diferentes, que podem te ajudar com determinadas situações do…

6.5

Bom

Veredito Final

Mafia 3 faz várias coisas com excelência: conta uma história de vingança bem escrita, com cenas de corte, animações e diálogos brilhantemente executados, e personagens carismáticos e bem desenvolvidos. Tudo acompanhado por uma das melhores trilhas sonoras licenciadas dos últimos tempos. Os três finais e as diferentes escolhas possíveis durante o game, agregam ainda mais valor. O problema é que isto é sombreado por atividades repetitivas e sem criatividade, uma inteligência artificial horrenda e um gameplay passável, sem nenhuma diferença para outros jogos do gênero. Mafia 3 ainda conta com uma série de problemas gráficos, como texturas de baixa resolução, bugs na iluminação, baixa otimização e crashes constantes. O game acerta em vários pontos, mas falha em tantos outros que suas verdadeiras qualidades ficam em segundo plano.

Nota
7

Co-fundador e editor da SuperGamePlay. Fanático por games, já quebrou diversos controles jogando Decatlhon no Atari e passou incontáveis horas soprando cartuchos de Super Nintendo. Hoje passa o tempo livre em meio a centenas de jogos, dos mais variados estilos e plataformas.