Review – I Am Setsuna – Duas décadas de nostalgia

23 de julho de 2016

Nostalgia é um sentimento muito em evidência nos últimos anos, principalmente no mundo dos games. Por isso é muito natural que produtoras tentem abocanhar um pedaço do seu bolso e do seu coração com jogos que apelam para este sentimento. O fato da Square Enix ter criado um novo estúdio para se dedicar a criação de RPGs japoneses bem ao estilo dos adorados clássicos do passado, só comprova o potencial deste mercado nostálgico. I Am Setsuna é o primeiro game da Toyko RPG Factory e tem sido chamado de o sucessor espiritual de Chrono Trigger, uma afirmação bem pretensiosa, já que estamos falando de um dos melhores, se não o melhor, JRPG de todos os tempos.

Arrogante ou não, a afirmação tem peso literal durante todo o jogo. I Am Setsuna é absolutamente inspirado por Chrono Trigger, principalmente em seu sistema de combate, que conta até com ataques idênticos (também chamados de Tech), como Fire II, X-Strike e mais. Outros clássicos da Square também são referenciados, como a história de Yuna em Final Fantasy X que é praticamente idêntica a narrativa de Setsuna. Mesmo com partes já tão conhecidas, a Tokyo RPG Factory consegue juntá-las em um ótimo game, que deve agradar fãs dos clássicos e também quem procura seu primeiro JRPG .

I Am Setsuna conta a história – obviamente – da garota Setsuna, que foi escolhida como sacrifício para impedir que monstros continuem a invadir o reino dos humanos. Você controla o jovem Endir, membro de um grupo de mercenários que recebe a tarefa de eliminar Setsuna. Não é preciso dizer que Endir falha em sua missão e acaba virando um dos guardiões da garota, enquanto esta peregrina por perigosos territórios até as “Last Lands” para se oferecer como sacrifício.

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Mesmo muito semelhante a Final Fantasy X, a história de Setsuna me surpreendeu e agradou muito, sendo envolvente do início ao fim. A forma como o game revela os verdadeiros propósitos de cada personagem, criando inúmeras reviravoltas e conflitos é bem natural e jamais forçada. A narrativa de Setsuna é bem mais séria e triste do que os clássicos do passado. São pouquíssimos momentos de humor e o jogo mantém firme sua atmosfera de aflição e sofrimento durante todo o tempo.

Este detalhe pode até não agradar alguns, mas jamais é um ponto negativo, já que tudo é apoiado brilhantemente por cenários melancólicos, abarrotados de neve e uma trilha sonora fantástica, toda no piano. Mesmo com uma equipe de pouco mais de dez pessoas, a Toyko RPG Factory faz uso de algumas tecnologias modernas e o talento dos seus artistas e cria um universo único e belíssimo, recheado de detalhes como o deslocamento da neve quando você se move, árvores balançando de derrubando neve, casas lotadas de objetos e muito mais. O único pecado de Setsuna neste quesito é repetir estes ambientes em excesso, algo relativamente comum em uma produção com custo reduzido.

O gameplay de I Am Setsuna também é competente e complexo o suficiente, baseando-se claramente em Chrono Trigger, com algumas variações interessantes e outras decisões infelizes. Cada personagem pode ser equipado com uma arma, que é responsável pelos principais atributos, e um talismã que é responsável pela quantidade de magia que pode ser equipada (chamadas de Spritnite) e os bônus adicionais que estas podem receber. Cada nível conquistado aumenta o HP e MP dos heróis, além dos atributos básicos como força, agilidade e outros. As batalhas acontecem parcialmente por turnos, com o conhecido sistema de ATB, aonde uma barra dita o tempo que você pode executar tal ação.

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Setsuna tenta se diferenciar um pouco com a mecânica de “Momentum”, aonde você acumula pontos de ação durante as batalhas (chamados SP) e pode gastar estes pontos apertando um botão logo após o ataque ou magia. Ao gastar o SP seu ataque pode ser duplicado, sua magia pode ter um alcance maior, além de vários outros efeitos adicionais. O “Momentum” é uma adição muito bem vinda e deixa as batalhas mais dinâmicas e interessantes.

O mesmo não posso dizer sobre outros sistemas, como os Fluxes, que adicionam atributos permanentes aos seus ataques e o Fluxation que fornece bônus temporários durante o combate. O problema destes dois elementos é sua aleatoriedade. Você tem pouquíssimo controle se tal Fluxe será adicionado ou se um Fluxation irá acontecer. Para um RPG com combates por turnos, aonde estratégia é essencial, tamanha aleatoriedade não se encaixa muito bem. O game ainda conta com um sistema de comidas, cujo os ingredientes podem ser encontrados nos cenários e estas dão bônus adicionais antes de cada batalha. Porém, o game jamais te dá motivos para usá-las e estas acabam sendo uma mecânica inútil.

Inimigos em I Am Setsuna estão sempre presentes no mapa e você pode escolher a forma como enfrentá-los, atacando por trás, pela frente ou evitando-os completamente. Diga adeus a maldição dos encontros randômicos. As batalhas também são rápidas, muito divertidas e a medida que você consegue novas magias, descobre novos combos entre os personagens e inúmeros efeitos adicionais do “Momentum”, combates se tornam ainda mais interessantes e complexos, dando muita liberdade para se criar inúmeras estratégias contra inimigos mais poderosos.

Outras decisões da Tokyo RPG Factory com o gameplay são no mínimo curiosas. Como a falta de Inns (as hospedarias aonde você descansa e se recupera) e a fato dos inimigos não droparem dinheiro e sim materiais. Estes materiais devem ser vendidos para liberar a compra de magias, um passo adicional que não vejo sentido. Estas decisões não afetam a diversão, mas já que tudo é tão inspirado pelos clássicos, porque não ir com força total e adicionar estes elementos também?

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Todo o elenco de Setsuna é bem desenvolvido, com o jogo dedicando boa parte de suas mais de 25 horas a revelação do passado e das motivações de cada personagem. A exceção fica por conta do protagonista, que é sem graça e suas pretensões jamais são explicadas. O jogo até te dá opções de responder de formas diferentes durante diálogos, basicamente te forçando a ser um honrado guerreiro ou um completo idiota. A forma como você responde gera reações diferentes, mas não tem efeito adicional nenhum na narrativa do game, o que para mim é uma oportunidade desperdiçada.

I Am Setsuna também tem muito pouco conteúdo adicional. O game é praticamente uma longa quest principal, com quase nenhuma missão paralela, mini-games ou as centenas de segredos que clássicos do passado costumavam incluir. Tenho muitos poucos motivos para voltar ao jogo após tê-lo zerado, exceto para pegar as habilidades supremas de cada personagem e eliminar alguns inimigos mais poderosos. Como fã absoluto do gênero, senti muita falta destes detalhes que me faziam gastar várias horas adicionais nos clássicos, mas ao mesmo tempo vejo que isto pode até ser um ponto positivo para aqueles não tem muita paciência em passar dezenas de horas com um JRPG.

Justamente por ser meu gênero favorito, posso estar pegando um pouco pesado com esta análise de I Am Setsuna. Porém, independente das minhas críticas, o game precisa ser apreciado por todos e a Tokyo RPG Factory merece ser aplaudida. Setsuna é uma excelente estréia para um estúdio minúsculo que tem a difícil tarefa de trazer de volta a qualidade dos clássicos JRPGs do passado. O game é pretensioso ao dizer que é um sucessor espiritual de Chrono Trigger, mas consegue – com qualidade – trazer lá do fundo da minha alma, a mesma diversão que tive com jogos do estilo a duas décadas atrás.

  • Este review de I Am Setsuna foi feito no PS4 com uma cópia do game enviada para nós pela Square Enix.
Nostalgia é um sentimento muito em evidência nos últimos anos, principalmente no mundo dos games. Por isso é muito natural que produtoras tentem abocanhar um pedaço do seu bolso e do seu coração com jogos que apelam para este sentimento. O fato da Square Enix ter criado um novo estúdio para se dedicar a criação de RPGs japoneses bem ao estilo dos adorados clássicos do passado, só comprova o potencial deste mercado nostálgico. I Am Setsuna é o primeiro game da Toyko RPG Factory e tem sido chamado de o sucessor espiritual de Chrono Trigger, uma afirmação bem pretensiosa, já que estamos falando de um dos melhores, se não o melhor, JRPG de todos os tempos. Arrogante ou não, a afirmação tem peso literal durante todo o jogo. I Am Setsuna é absolutamente inspirado por Chrono Trigger, principalmente em seu sistema de combate, que conta até com ataques idênticos (também chamados de Tech), como Fire II, X-Strike e mais. Outros clássicos da Square também são referenciados, como a história de Yuna em Final Fantasy X que é praticamente idêntica a narrativa de Setsuna. Mesmo com partes já tão conhecidas, a Tokyo RPG Factory consegue juntá-las em um ótimo game, que deve agradar fãs dos clássicos e também quem procura seu primeiro JRPG . I Am Setsuna conta a história - obviamente - da garota Setsuna, que foi escolhida como sacrifício para impedir que monstros continuem a invadir o reino dos humanos. Você controla o jovem Endir, membro de um grupo de mercenários que recebe a tarefa de eliminar Setsuna. Não é preciso dizer que Endir falha em sua missão e acaba virando um dos guardiões da garota, enquanto esta peregrina por perigosos territórios até as "Last Lands" para se oferecer como sacrifício. Mesmo muito semelhante a Final Fantasy X, a história de Setsuna me surpreendeu e agradou muito, sendo envolvente do início ao fim. A forma como o game revela os verdadeiros propósitos de cada personagem, criando inúmeras reviravoltas e conflitos é bem natural e jamais forçada. A narrativa de Setsuna é bem mais séria e triste do que os clássicos do passado. São pouquíssimos momentos de humor e o jogo mantém firme sua atmosfera de aflição e sofrimento durante todo o tempo. Este detalhe pode até não agradar alguns, mas jamais é um ponto negativo, já que tudo é apoiado brilhantemente por cenários melancólicos, abarrotados de neve e uma trilha sonora fantástica, toda no piano. Mesmo com uma equipe de pouco mais de dez pessoas, a Toyko RPG Factory faz uso de algumas tecnologias modernas e o talento dos seus artistas e cria um universo único e belíssimo, recheado de detalhes como o deslocamento da neve quando você se move, árvores balançando de derrubando neve, casas lotadas de objetos e muito mais. O único pecado de Setsuna neste quesito é repetir estes ambientes em excesso, algo relativamente comum em uma produção com custo reduzido. O gameplay de I Am Setsuna também é competente e complexo o suficiente, baseando-se claramente em Chrono Trigger, com…

7.5

Muito Bom

Veredito Final

I Am Setsuna é pretensioso ao dizer ser sucessor de Chrono Trigger, mas a afirmação fica clara durante todo o game, já que a inspiração pelo clássico da Square é óbvia. O game conta uma história que me agradou muito e é envolvente do início ao fim. A ambientação melancólica é apoiada por belíssimos cenários abarrotados de neve e uma trilha sonora fantástica, tocada só no piano. O combate por turnos utiliza a boa e velha mecânica ATB, sem a maldição dos encontros randômicos, sendo bastante complexo e dinâmico graças ao sistema de Momentum. O problema fica por conta de elementos aleatórios confusos e mecânicas subutilizadas ou inexistentes. Setsuna também tem muito pouco conteúdo adicional para justificar o retorno após terminá-lo, mas não deixa de ser uma excelente estréia para o pequeno estúdio da Tokyo RPG Factory, que tem a difícil missão de trazer de volta a qualidade dos JRPGs do passado. O game não é Chrono Trigger, mas conseguiu me divertir da mesma forma que os adorados jogos do estilo de duas décadas atrás.

Nota
8

Co-fundador e editor da SuperGamePlay. Fanático por games, já quebrou diversos controles jogando Decatlhon no Atari e passou incontáveis horas soprando cartuchos de Super Nintendo. Hoje passa o tempo livre em meio a centenas de jogos, dos mais variados estilos e plataformas.