Review – Firewatch – Não brinque com fogo

8 de fevereiro de 2016

O primeiro game da desenvolvedora Campo Santo ganhou a minha atenção no ano passado principalmente pelo seu visual e também pelo talento por trás do do projeto. Firewatch foi desenvolvido por um time pequeno, liderado por Jake Rodkin e Sean Vanaman, ambos líderes de criação do fantástico The Walking Dead da Telltale Games. Outro detalhe que me deixou bastante curioso na época que vi trailers do jogo pela primeira vez é que a desenvolvedora conseguiu não dar nenhuma ideia do que a história se tratava e por mais incrível que pareça, até os minutos finais de Firewatch, eu ainda estava intrigado se o game teria algum elemento sobrenatural, se estava caminhando para uma reviravolta ou um final surpreendente. Em um mundo aonde spoilers estão em em todos os lugares, este feito da Campo Santo é surpreendente.

Porém, o fato de deixar o jogador intrigado até o último minuto também coloca o jogo em risco de gerar uma decepção maior ainda, mas antes de entrar nestes detalhes, vamos a descrição. Firewatch é um game de aventura em primeira pessoa e se passa nas florestas do estado de Wyoming no Estados Unidos. Jogadores assumem o papel de Henry (dublado por Rich Sommer da série Mad Men) em seu primeiro dia de trabalho como guarda florestal. Henry se comunica por walkie-talkie com Delilah (dublada por Cissy Jones) que faz o papel de sua supervisora. A princípio o game é apoiado em seus diálogos e nas escolhas que você faz durante conversas com Delilah.

Eu poderia passar horas admirando paisagens e ouvindo os belos efeitos sonoros que simulam com fidelidade o ambiente a sua volta. Tudo se encaixa tão bem que a sensação de imersão é única.

O roteiro inteligente e adulto faz com que as conversas com Delilah sejam extremamente interessantes e a química entre os dois personagens é notável desde o início. Isto não só gera alguns momentos cômicos, como consegue passar com competência as diferentes emoções de cada um em partes da história. O uso exclusivo do walkie-talkie em diálogos pode dar a impressão de que estes sejam pouco dinâmicos, mas a Campo Santo fez um excelente trabalho com esta mecânica de jogo. Você pode chamar Delilah a todo momento, ficar calado ou simplesmente ignorá-la durante praticamente todo o jogo.

sgp_review_firewatch_screen_(13)

Esta dinâmica reflete com competência o seu papel como jogador na vida de Henry. Firewatch deixa claro desde o início que, por mais que você tenha certas liberdades ao escolher, Henry já tem sua personalidade formada e já é um homem vivido, por isto não espere opções que diferem muito uma da outra (como visto em muitos jogos do gênero). A intenção de Firewatch não é que cada jogador crie “seu próprio Henry” e sim que cada um acompanhe estes curiosos meses na vida do protagonista e entenda suas motivações e anseios. Já o relacionamento com Delilah pode sofrer algumas variações dependendo das suas escolhas, mas ainda assim os resultados são “presos” a personalidade do protagonista.

Os ótimos diálogos de Firewatch não seriam muito por si só, se estes não fossem acompanhados por uma das mais belas artes gráficas que já vi em jogos da atual geração. Os cenários são simplesmente belíssimos deixando a natureza das florestas de Wyoming ainda mais imponente, bela e desoladora. Passei vários minutos só admirando as paisagens em cada canto do mapa e ouvindo os belos efeitos sonoros que simulam com muita qualidade o ambiente a sua volta. Sons de pássaros, riachos, galhos balançando, tudo se encaixa tão bem com os belos cenários que a sensação de imersão é única.

Apesar de ser linear e contar com caminhos definidos, o mapa do jogo é aberto logo de início e você pode caminhar para aonde quiser (desde que através destas trilhas). Em alguns pontos o jogo permite uma exploração adicional, deixando você sair da trilha. Uma pena que é existem tão poucas coisas para se descobrir fora do caminho já traçado. A movimentação em primeira pessoa é muito bem executada e realista. Henry para ao saltar objetos mesmo que estes sejam pequenos degraus, senta a beira de uma parede de pedras antes de pular, ou empurra a mata antes de adentrar uma trilha mais complicada.

sgp_review_firewatch_screen_(20)

A outra mecânica de gameplay envolve pegar e inspecionar objetos, dezenas deles. A maioria não tem propósito nenhum e inclusive raramente você consegue colocá-los de volta no lugar, algo bem frustrante para quem gosta das coisas organizadas (mesmo virtualmente). Os objetos mais interessantes como documentos e cartas que o próprio protagonista escreve ficam inacessíveis e você só consegue vê-los se posicionar a câmera corretamente e chegar bem próximo da TV. Um detalhe no mínimo frustrante, dado a quantidade de objetos inúteis que são “pegáveis”.

A história de Firewatch, que dura por volta de 5h a 6h (ou bem menos dependendo da sua vontade de explorar), é intrigante do início até quase no fim e realmente te faz querer saber mais e mais do que está ocorrendo. Porém a sua conclusão deixa muito a desejar. Assim como mencionei no começo deste review, quando se prende o jogador no “mistério” por muito tempo, gera-se muita expectativa e dependendo de como esta é entregue, corre-se um risco enorme de decepcionar. Fiquei durante todo o tempo de jogo esperando uma grande revelação, uma reviravolta que pudesse saciar minha curiosidade, mas ao final a única coisa que conseguia pensar era: “então é só isso?”.

Outro ponto em que o game me desapontou é em relação as escolhas e consequências. Os diálogos ainda contam com uma certa variação que dão a entender possíveis consequências, mas nas três vezes que joguei (todas respondendo de forma completamente diferente) as mudanças foram insignificantes. O máximo que ocorre é uma reação diferente de Delilah, que logo já volta ao assunto principal. Não se mudam objetivos, não se muda o final da história, não se mudam situações, nem mesmo o relacionamento com Delilah tem alterações consideráveis.

sgp_review_firewatch_screen_(12)

Esta pode ser uma forma do jogo deixar claro que você não está no controle da vida de Henry, você só acompanha sua história. Porém, não deixa de ser decepcionante quando o jogo te força a fazer escolhas sobre o passado e presente do personagem e estas não tem impacto nenhum na conclusão da narrativa. Talvez até existam escolhas que geram mudanças mais complexas, algo que mude de forma considerável o final, mas confesso que joguei de novo e de novo e não tive sucesso.

Felizmente, o gosto ou não pela história e pela falta de consequências concretas, acaba sendo uma opinião individual e Firewatch merece ser jogado para que você também tenha a sua. Porém, existe um problema inegável: a performance no PlayStation 4 é sofrível, com queda constante de frames que chega a frustrar. Não atrapalha por completo a experiência de jogo, mas é algo que com certeza poderia melhorá-la. Encontrei poucos bugs, a maioria relacionados a movimentação ou na hora de pegar itens, mas nada atrapalhou o gameplay e inclusive estes devem ser corrigidos com um patch em breve. Não é preciso dizer que no PC, com configuração adequada, o jogo roda muito bem e esta seria a plataforma recomendada.

A falta de legendas em outra língua também é frustrante, pois isto poderia fazer o ótimo game ser aproveitado por mais jogadores. A Campo Santo nos informou que já trabalha em uma atualização para incluir legendas, mas o Português do Brasil não está na lista inicial. Independente das minhas críticas, Firewatch é um game que eu recomendaria para qualquer um. O roteiro é bem escrito, os diálogos são inteligentes e personagens transpiram carisma. Mesmo que o final tenha me decepcionado e que as escolhas não tenham tanto impacto, o fato do jogo te prender do início ao fim é uma qualidade muito positiva. Junte isto a cenários belíssimos e envolventes e temos a receita para um ótimo game de aventura.

  • Este review de Firewatch foi feito no PlayStation 4 com uma cópia do game enviada para nós pela Campo Santo.
O primeiro game da desenvolvedora Campo Santo ganhou a minha atenção no ano passado principalmente pelo seu visual e também pelo talento por trás do do projeto. Firewatch foi desenvolvido por um time pequeno, liderado por Jake Rodkin e Sean Vanaman, ambos líderes de criação do fantástico The Walking Dead da Telltale Games. Outro detalhe que me deixou bastante curioso na época que vi trailers do jogo pela primeira vez é que a desenvolvedora conseguiu não dar nenhuma ideia do que a história se tratava e por mais incrível que pareça, até os minutos finais de Firewatch, eu ainda estava intrigado se o game teria algum elemento sobrenatural, se estava caminhando para uma reviravolta ou um final surpreendente. Em um mundo aonde spoilers estão em em todos os lugares, este feito da Campo Santo é surpreendente. Porém, o fato de deixar o jogador intrigado até o último minuto também coloca o jogo em risco de gerar uma decepção maior ainda, mas antes de entrar nestes detalhes, vamos a descrição. Firewatch é um game de aventura em primeira pessoa e se passa nas florestas do estado de Wyoming no Estados Unidos. Jogadores assumem o papel de Henry (dublado por Rich Sommer da série Mad Men) em seu primeiro dia de trabalho como guarda florestal. Henry se comunica por walkie-talkie com Delilah (dublada por Cissy Jones) que faz o papel de sua supervisora. A princípio o game é apoiado em seus diálogos e nas escolhas que você faz durante conversas com Delilah. Eu poderia passar horas admirando paisagens e ouvindo os belos efeitos sonoros que simulam com fidelidade o ambiente a sua volta. Tudo se encaixa tão bem que a sensação de imersão é única. O roteiro inteligente e adulto faz com que as conversas com Delilah sejam extremamente interessantes e a química entre os dois personagens é notável desde o início. Isto não só gera alguns momentos cômicos, como consegue passar com competência as diferentes emoções de cada um em partes da história. O uso exclusivo do walkie-talkie em diálogos pode dar a impressão de que estes sejam pouco dinâmicos, mas a Campo Santo fez um excelente trabalho com esta mecânica de jogo. Você pode chamar Delilah a todo momento, ficar calado ou simplesmente ignorá-la durante praticamente todo o jogo. Esta dinâmica reflete com competência o seu papel como jogador na vida de Henry. Firewatch deixa claro desde o início que, por mais que você tenha certas liberdades ao escolher, Henry já tem sua personalidade formada e já é um homem vivido, por isto não espere opções que diferem muito uma da outra (como visto em muitos jogos do gênero). A intenção de Firewatch não é que cada jogador crie "seu próprio Henry" e sim que cada um acompanhe estes curiosos meses na vida do protagonista e entenda suas motivações e anseios. Já o relacionamento com Delilah pode sofrer algumas variações dependendo das suas escolhas, mas ainda assim os resultados são "presos" a personalidade do protagonista. Os ótimos diálogos de Firewatch não seriam muito por si só, se estes não fossem acompanhados por uma das mais belas artes gráficas que já vi em jogos…

7.5

Muito Bom

Veredito Final

As duas grandes qualidades de Firewatch são a de conseguir te deixar preso na história do ínicio ao fim e a de contar com uma das mais belas artes gráficas da atual geração. O roteiro inteligente, adulto e a química dos carismáticos personagens, fazem com que os diálogos sejam interessantes e até divertidos. O grande problema de Firewatch reside justamente em uma de suas qualidades. Ao prender tanto o jogador na história, é preciso entregar uma conclusão que supere expectativas, o que não acontece. As inúmeras opções de diálogos também não tem consequências significantes e é frustrante ser forçado a escolher detalhes do passado do protagonista e estes não terem impacto nenhum na narrativa. A performance do game no PlayStation 4 é sofrível e mesmo isto não atrapalhando por completo a experiência, fica claro que o game é melhor aproveitado no PC. De qualquer forma, as grandes qualidades de Firewatch conseguem prevalecer até o final e o game de aventura da Campo Santo é fácil de ser recomendado para qualquer um (que saiba inglês).

Nota
8

Co-fundador e editor da SuperGamePlay. Fanático por games, já quebrou diversos controles jogando Decatlhon no Atari e passou incontáveis horas soprando cartuchos de Super Nintendo. Hoje passa o tempo livre em meio a centenas de jogos, dos mais variados estilos e plataformas.