Review – Fallout 4 – A guerra nunca muda

9 de dezembro de 2015

Depois de mais de cinco anos de muita ansiedade, um novo game da série Fallout chega finalmente em nossas casas. Antes de mais nada é bom deixar claro que Fallout 4 não é o jogo que todo fã imaginava que iria revolucionar a nova geração de consoles. Isto fica ainda mais ressaltado quando comparamos o novo game da Bethesda com outros grandes lançamentos deste ano, como The Witcher 3 e Metal Gear Solid V. Os jogos da CD Projekt Red e da Kojima Productions mostraram o verdadeiro poder destes novos consoles, com gráficos belíssimos e apresentação sem igual, além de uma qualidade técnica invejável. Porém chega a ser injusto comparar Fallout 4 com estes, pois o game pós-apocalíptico tem um objetivo diferente.

Sua primeira tarefa em Fallout 4 é criar um personagem e a Bethesda não poupou esforços no complexo sistema que permite criar qualquer tipo de rosto e corpo, além é claro de poder escolher o sexo. A opção de utilizar uma personagem feminina durante toda a trama é uma adição muito bem vinda. Logo em seguida você distribui seus atributos S.P.E.C.I.A.L. e em poucos minutos o jogo te coloca em um mundo pós-nuclear gigantesco, com uma atmosfera absurdamente cativante que combina momentos de extrema violência com humor negro de primeira qualidade.

Os gráficos não são páreos para outros jogos que vimos este ano, mas logo nas primeiras horas de jogo fica muito claro que este detalhe não altera em nada a experiência Fallout 4. O universo do jogo possui tantos detalhes que merecem ser mencionados que não sei nem por onde começar a descrevê-los. Das centenas de localidades e personagens, cada um com suas histórias, até encontros com diversas criaturas bizarras e assustadoras, tudo em Fallout 4 clama por sua atenção e a Bethesda fez um trabalho fantástico ao recompensar jogadores por sua curiosidade e interesse.

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Assim como a frase mais memorável da série (e que aqui é repetida várias vezes), a guerra nunca muda e fiel a este conceito, Fallout 4 pega emprestado muitos dos elementos dos seus antecessores e a cada hora de jogo continua a te provar que a guerra realmente nunca muda. O game se inicia em 2077, em um mundo aonde as bombas nucleares ainda não caíram e todos vivem seu sonho americano. No universo do jogo, temos um futuro/passado distópico aonde a tecnologia nuclear ocupou o lugar de muitas das tecnologias que temos atualmente. O tempo que passamos neste período é muito curto, mas é suficiente para nos dar um pouco da história e motivações iniciais por trás do seu personagem.

Quando digo “motivações iniciais” é porque logo o game te coloca em 2287, aproximadamente dez anos após os eventos de Fallout 3, desta vez na região de Boston, aqui chamada de Commonwealth. O novo mundo completamente devastado te dá total liberdade para fazer o que quiser em busca de informações e sobrevivência. Esta quantidade absurda de possibilidades para seu gameplay é algo originário dos primeiros games da série e continua a ser o principal motivador desta “experiência Fallout”. Se algum dia tivermos um novo jogo da franquia, podem ter certeza que a guerra não mudará novamente.

Claro que cinco anos é tempo suficiente para que a Bethesda modificasse alguns dos elementos do jogo. Dentre as principais mudanças está a possibilidade de evoluir perks (vantagens) e também os próprios atributos. Teoricamente é possível conseguir todas as habilidades do jogo e colocar todos seus atributos no nível máximo. De início fica parecendo que as velhas decisões agoniantes sobre aonde investir foram deixadas de lado, mas a medida que o tempo passa, você nota que precisaria de centenas de horas de jogo para conseguir evoluir tudo e a boa e velha agonia retorna rapidamente. A novidade é bem vinda, principalmente por oferecer uma maior sensação de progressão e nos apresentar tudo em um poster digital com as habilidades e seus efeitos. No final das contas, a mudança acaba não sendo algo tão diferente.

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Um detalhe que muitos fãs da série vão notar é a falta do sistema de karma. No passado, respostas ou decisões consideradas “maldosas”, te davam karma negativo, enquanto decisões boas te davam karma positivo. O sistema ainda existe por trás de Fallout 4, mas tem bem menos efeito. Aqui reside um das minhas principais críticas. As opções de diálogo (que sempre foram o ponto inicial do velho sistema de karma) são extremamente limitadas e com o passar do tempo se tornam bestas e repetitivas. Basicamente você pode fazer uma pergunta, ser sarcástico, ser bonzinho ou ser sem-educação. Raramente a interação com outros personagens foge disso, fora casos aonde é possível utilizar carisma para uma resposta diferenciada.

Jogos anteriores sempre nos deram complexas opções de resposta, que podiam utilizar até inteligência, força, percepção e mais importante ainda, tinham repercussões profundas no jogo. Isto alterava seu Karma que por consequência alterava a forma como novos diálogos aconteciam. Em Fallout 4 é muito difícil que uma resposta ruim tenha alguma consequência (salvo a momentos em que você está tentando evitar um combate com carisma). Muitas vezes algum personagem pode ficar nervoso com você inicialmente, mas logo em seguida o diálogo já continua seu caminho normal. Quem estiver tentando jogar Fallout 4 com tendências mais “malignas”, a melhor opção é ignorar o diálogo e só utilizar “chumbo”.

De volta aos pontos positivos do novo game, temos o retorno dos companheiros, que desta vez estão em quantidade ainda maior. São mais de uma dúzia de personagens extremamente interessantes e variados para viajar junto com você no universo do jogo. Muitos destes tem histórias complexas de vida e você é convidado a ajudá-los a medida que sua afinidade aumenta. Este envolvimento com cada personagem (que pode ser até romântico) os torna mais carismáticos e divertidos de se ter por perto. A opção de equipá-los com as mais diversas armas e roupas dá um toque ainda mais pessoal ao relacionamento e que também são de grande ajuda frente aos perigos da Commonwealth.

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Talvez a principal novidade de Fallout 4 seja seu sistema de criação de acampamentos. Em um estilo bem “Minecraft”, você pode utilizar todos os milhares de objetos encontrados em suas explorações e deixar sua imaginação rolar solta. Seja construindo uma fortaleza, ou uma simples casa, Fallout 4 te dá mais de uma centena de itens que vão desde portas e paredes, até sistemas de energia, água, comida e até barracas de venda. Basta uma simples pesquisa na internet para que você encontre as mais absurdas e épicas criações de outros jogadores e entenda melhor do que este sistema é capaz.

Uma pena que a interface de construção não é das melhores e muitas vezes colocar objetos na posição correta exige certa paciência, mas confesso que passei várias horas construindo minha humilde casa e decorando-a das mais diversas formas. Um aviso importante é para aqueles que, assim como eu, tem costume de pegar tudo que encontra pelo cenário. Apesar disto te ajudar bastante ao longo do jogo, as primeiras horas de Fallout 4 podem ser bastante cansativas e te deixar sobrecarregado com tanta informação e conteúdo. Seguindo esta mesma ideia, considero Fallout 4 o mais desafiador de todos da série, principalmente para você que não se importa muito com itens, quer apenas avançar na história e tem tendência de explorar pouco. Prepare-se para uma curva de dificuldade bem acentuada.

Fallout 4 ainda conta com um sistema de modificação de armas e armaduras bastante complexo e satisfatório. Uma simples pistola de cano pode virar uma poderosa arma de longo alcance. Todos os itens que você encontra pelos cenários servem de uma forma ou de outra para este processo e novamente reforçam a ideia de que o jogo valoriza quem explora. Criar modificações mais poderosas também está amarrado a certas vantagens e caberá a você decidir quando evoluí-los. Inimigos mais especiais e mais poderosos (marcados com uma estrela) também podem te fornecer equipamentos lendários, que além de serem passíveis de modificação, também contam com benefícios adicionais únicos. Esta novidade é muito bem vinda e dá ainda mais dinâmica aos combates, evitando a repetitividade e fornecendo ainda mais motivos para a exploração.

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As icônicas Power Armors estão ainda mais épicas. O acesso as mesmas é um pouco mais fácil do que jogos anteriores, mas a Bethesda incluiu um excelente sistema de evolução destas armaduras. Cada uma é composta por cinco peças que podem ser customizadas das mais diversas formas (inclusive alterando a pintura) e ainda existem diferentes modelos de Power Armor, uma mais poderosa que a outra. A forma como o personagem entra na armadura e a forma como a interface do jogo muda dentro da mesma são pequenos detalhes que deixam a experiência ainda mais grandiosa.

Não tem nada mais prazeroso do que explorar cada metro quadrado da Commonwealth descobrindo centenas de localidades, personagens e histórias pelo caminho. Meus momentos mais memoráveis em Fallout 4 aconteceram fora das quests principais, em objetivos paralelos que encontrei em um local ainda não explorado. A grande maioria destes side quests criados pela Bethesda são brilhantes, complexos e envolventes. As quests principais também não ficam de fora e vem das diferentes facções que lutam pelo controle da Commonwealth. Estes também oferecem a oportunidade de nos colocarmos de verdade naquela situação e de tomarmos decisões morais complexas que podem afetar todo o jogo.

Por mais divertido e recompensador que seja Fallout 4, este não seria um jogo da Bethesda se fosse tecnicamente perfeito. Fallout 4 conta com bugs, muitos bugs e não estou falando dos terríveis insetos que habitam a Commonwealth, mas sim dos “tradicionais” bugs de jogos da desenvolvedora. Quem jogou Fallout 3, New Vegas ou Skyrim sabe muito bem do que estou falando. Fallout 4 porém, parece levar o troféu. É bom deixar claro que a grande maioria destes bugs não afetam de forma alguma o gameplay e chegam a ser engraçados, porém me deparei com alguns problemas que me forçaram reiniciar o jogo (como o Pip-Boy não aparecendo, travamentos generalizados, ou ficando preso em algum objeto do cenário).

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Veja bem, Fallout 4 é um jogo gigantesco, com milhares de partes em movimento ao mesmo tempo e durante mais de 100 horas de jogo é claro que algumas destas partes podem “tropeçar” uma na outra. Como não se divertir quando um NPC resolve caminhar e parar bem no meio de sua conversa, ou quando um companheiro resolve conversar com você enquanto ao fundo um super mutante vem vindo em sua direção com uma bomba na mão? Isto só adiciona ao charme e ao estilo imprevisível de Fallout 4. O detalhe é que me deparei com tantos destes tropeços, que com o tempo, fica difícil ignorá-los e usar a desculpa de que “este é um jogo da Bethesda” (o que não deveria ser uma desculpa).

Mesmo com pequenos problemas e uma história com final não tão conclusivo quanto eu gostaria, o mundo e a atmosfera de Fallout 4 são o que fazem deste um dos melhores jogos do ano. Explorar locais devastados e infestados de inimigos, ao som de uma trilha sonora repleta de clássicos do passado é uma experiência única. Aliado a isto ainda temos uma infinidade de excelentes quests paralelos, que revelam mais detalhes da região e dos personagens que a habitam, tudo com uma dose de humor negro certeira. Fallout 4 pode não ser o game revolucionário que esperávamos, mas ao se inspirar na obra-prima que foram seus antecessores, a Bethesda acerta a mão mais uma vez e prova que a guerra realmente não precisa mudar.

  • Este review de Fallout 4 foi feito no PlayStation 4 com uma cópia do game enviada para nós pela Bethesda.
Depois de mais de cinco anos de muita ansiedade, um novo game da série Fallout chega finalmente em nossas casas. Antes de mais nada é bom deixar claro que Fallout 4 não é o jogo que todo fã imaginava que iria revolucionar a nova geração de consoles. Isto fica ainda mais ressaltado quando comparamos o novo game da Bethesda com outros grandes lançamentos deste ano, como The Witcher 3 e Metal Gear Solid V. Os jogos da CD Projekt Red e da Kojima Productions mostraram o verdadeiro poder destes novos consoles, com gráficos belíssimos e apresentação sem igual, além de uma qualidade técnica invejável. Porém chega a ser injusto comparar Fallout 4 com estes, pois o game pós-apocalíptico tem um objetivo diferente. Sua primeira tarefa em Fallout 4 é criar um personagem e a Bethesda não poupou esforços no complexo sistema que permite criar qualquer tipo de rosto e corpo, além é claro de poder escolher o sexo. A opção de utilizar uma personagem feminina durante toda a trama é uma adição muito bem vinda. Logo em seguida você distribui seus atributos S.P.E.C.I.A.L. e em poucos minutos o jogo te coloca em um mundo pós-nuclear gigantesco, com uma atmosfera absurdamente cativante que combina momentos de extrema violência com humor negro de primeira qualidade. Os gráficos não são páreos para outros jogos que vimos este ano, mas logo nas primeiras horas de jogo fica muito claro que este detalhe não altera em nada a experiência Fallout 4. O universo do jogo possui tantos detalhes que merecem ser mencionados que não sei nem por onde começar a descrevê-los. Das centenas de localidades e personagens, cada um com suas histórias, até encontros com diversas criaturas bizarras e assustadoras, tudo em Fallout 4 clama por sua atenção e a Bethesda fez um trabalho fantástico ao recompensar jogadores por sua curiosidade e interesse. Assim como a frase mais memorável da série (e que aqui é repetida várias vezes), a guerra nunca muda e fiel a este conceito, Fallout 4 pega emprestado muitos dos elementos dos seus antecessores e a cada hora de jogo continua a te provar que a guerra realmente nunca muda. O game se inicia em 2077, em um mundo aonde as bombas nucleares ainda não caíram e todos vivem seu sonho americano. No universo do jogo, temos um futuro/passado distópico aonde a tecnologia nuclear ocupou o lugar de muitas das tecnologias que temos atualmente. O tempo que passamos neste período é muito curto, mas é suficiente para nos dar um pouco da história e motivações iniciais por trás do seu personagem. Quando digo "motivações iniciais" é porque logo o game te coloca em 2287, aproximadamente dez anos após os eventos de Fallout 3, desta vez na região de Boston, aqui chamada de Commonwealth. O novo mundo completamente devastado te dá total liberdade para fazer o que quiser em busca de informações e sobrevivência. Esta quantidade absurda de possibilidades para seu gameplay é algo originário dos primeiros games da série e continua a ser o principal motivador desta "experiência Fallout". Se algum…

9.5

Fantástico!

Veredito Final

Fallout 4 pode não ser o jogo revolucionário que todos esperavam, mas as mais de 120 horas que passei neste universo pós-apocalíptico me fizeram entender que a Bethesda não precisava fazer muita coisa para me cativar completamente. A atmosfera única, que combina elementos brutais com humor negro, presenteia quem explora com as mais variadas localidades, personagens e objetivos. Mesmo os costumeiros bugs e a história principal que não tem um final muito conclusivo, são ofuscados por brilhantes quests paralelos, companheiros carismáticos e um mundo prazeroso de se explorar ao som de clássicos do passado. Ao se inspirar na obra-prima que foram seus antecessores, a Bethesda acerta a mão mais uma vez e prova que a guerra não precisa mudar para que tenhamos um dos melhores jogos do ano.

Nota
10

Co-fundador e editor da SuperGamePlay. Fanático por games, já quebrou diversos controles jogando Decatlhon no Atari e passou incontáveis horas soprando cartuchos de Super Nintendo. Hoje passa o tempo livre em meio a centenas de jogos, dos mais variados estilos e plataformas.