Crítica – 007 Contra Spectre – O fim inexpressivo da era Craig

7 de novembro de 2015

Na última quinta feira, 5 de novembro, ocorreu a estréia nos cinemas de 007 Contra Spectre, filme que marca a despedida de Daniel Craig no papel de James Bond, o agente secreto mais famoso da história do cinema. Por ser o último título de uma sequência de filmes bem sucedidos em termos de público e crítica, a expectativa para o “capítulo final” era grande, talvez grande demais, o que nesse caso pode ter atrapalhado, tornando as falhas do longa mais evidentes do que deveriam ser.

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Avaliando os três primeiros títulos de Craig como Bond, o que fica mais evidente é a óbvia evolução do personagem com relação a títulos anteriores, principalmente no que diz respeito ao seu lado emotivo, várias barreiras ainda não vistas na saga foram cruzadas. Bond sempre foi conhecido pelo galanteio e pelos diversos pares românticos nos filmes com as famosas “bond girls”, mas foi em 007 – Cassino Royale que ele viveu sua grande paixão verdadeira, Vesper, paixão essa que terminou em uma trágica desilusão amorosa.

Em 007 – Quantum of Solace, um novo tipo de relação afetiva tornou-se evidente, por decisão do diretor Marc Forster, surgiu a conexão quase maternal entre Bond e M, sua chefe, personagem vivida por Judi Dench. Ligação esta que foi muito bem utilizada no título seguinte, pois em 007 – Operação Skyfall a relação de M com Bond, e até dela com o vilão do filme, Silva, deu ao longa o tom mais intimista e emotivo da saga.

Por conta dessa abordagem mais sentimental, que a era Craig foi tão feliz em adotar, tornou-se natural esperar que esse capítulo final tivesse um tom dramático, que o enredo evoluiria para atingir uma espécie de clímax nesse último filme, e essa expectativa só aumentou quando foram anunciados o nome do filme, que revelava a aparição de Spectre, uma das organizações vilanescas mais importantes de toda a saga, e a escolha de Christoph Waltz para viver o vilão principal. Parecia tudo perfeito para criar a aventura mais dramática e pesada da saga, fechando com chave de ouro a quadrilogia, e foi isso que definitivamente não aconteceu.

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Em Spectre vemos um estranho paradoxo que desaponta todas as expectativas. Ao mesmo tempo em que se tenta entregar Bond de volta às suas origens, é feita a tentativa de finalizar a saga que foi tão valorizada por suas diferenças, criando um enredo que parece não saber o rumo que quer tomar. Enquanto o tema principal é a união dos dramas vividos por Bond nos três primeiros filmes, vemos um Bond absolutamente inabalável, intocável e insensível. O poderoso super vilão Ernst Stavro Blofeld, interpretado por Waltz, não parece sequer criar uma ameaça verdadeira. Bond está, em todos os momentos, muito acima dele, como um jogador que repete uma fase já jogada tantas vezes que a executa de modo automático.

Parecia tudo perfeito para criar a aventura mais dramática e pesada da saga, fechando com chave de ouro a quadrilogia, e foi isso que definitivamente não aconteceu

No que diz respeito às cenas de ação, o diretor Sam Mendes mantém o feito de Skyfall, valorizando bastante o visual e optando, sempre que possível, para o uso da filmagem clássica invés do abuso dos efeitos visuais computadorizados, o que cria sequências muito bonitas e realistas, mas que em alguns pontos parece tirar um pouco da criatividade, deixando a ação com mecânicas relativamente simples.

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007 Contra Spectre não é o grande final do James Bond mais requintado e dramático que vimos nos três primeiros filmes de Craig, mas no que diz respeito a saga como um todo, se mantém na média dos bons filmes do espião. É apenas uma pena que os fãs tenham perdido a oportunidade de ver Bond mais uma vez nessa sua forma mais densa, que tanto agradou recentemente. Resta agora saber quem será o próximo Bond do cinema, e torcer para que seja qual for o caminho que ele escolher, dramático ou não, que ele saiba fazer isso, sem se perder no meio do caminho.

Redator da SuperGamePlay, escritor, quadrinista, apaixonado por games desde a primeira vez que viu um Mega Drive. Pode não fazer todas as quests secundárias mas vai avaliar cautelosamente a paleta de cores do menu inicial. Um grande filósofo de banheiro que sonha com o dia em que nunca mais precisará dormir.