Review – Resident Evil VII – Menos é mais, muito mais

30 de janeiro de 2017

É bem verdade que todos nós gostamos de uma boa novidade, pedimos sempre para que as empresas criadoras de jogos tragam novas formas de jogar, novas experiências para as telas. Porém em contrapartida, também somos conservadores diante de tudo que é apresentado de novo para as franquias que já são velhas conhecidas, em especial aquelas das quais nos consideramos fãs, pois como fãs, nos sentimos um tanto quanto donos daquela obra que tanto amamos.

Sendo assim, a renovação de franquias no mundo dos games se tornou uma questão muito complicada, apesar de ser extremamente saudável para franquias duradouras serem capazes de se reinventar, é uma missão quase impossível obter sucesso em algo do gênero, talvez até mais difícil do que emplacar uma franquia totalmente nova.

Por conta de toda essa dificuldade, é preciso exaltar sem economia de elogios quando uma franquia consegue ser bem sucedida nessa empreitada, como é o caso de Resident Evil VII. Apesar da controversa expectativa que dividia fãs durante todo o trabalho de marketing antes do lançamento, o título consegue atingir o ponto chave do sucesso nesse cenário: ser completamente novo sem abandonar as raízes da franquia e se firmando como um recomeço válido, deixando a porta aberta para possíveis continuações. Não dá para dizer, é claro, que nada se perde nesse processo de renovação, pois para que o novo se estabeleça, também é preciso abrir mão de algumas coisas que provavelmente não se encaixariam, mas o mais importante é que o produto final seja bom o suficiente para que essas perdas possam valer a pena.

O gameplay da franquia Resident Evil já sofrera diversas mudanças ao longo da série, mas as mais marcantes e polêmicas entre os fãs até então são as mudanças no posicionamento de câmera, que eram fixas em cenário nos primeiros títulos, e tornaram-se mais flexíveis ao acompanhar o protagonista na visão em terceira pessoa que é mais comum nos títulos atuais.

Em decorrência dessa mudança na câmera, os títulos mais recentes acabaram tendo um aspecto muito mais voltado para a ação do que para o terror, culminando no último título numerado da série, Resident Evil 6, que não perde em nada em sequências de ação para jogos do gênero como Uncharted. Muitos fãs da série inclusive reclamavam dessa mudança, que teria descaracterizado a série como um survival horror genuíno.

Resident Evil VII aposta então em mais uma grande virada para a série, fazendo uso da câmera em primeira pessoa, buscando assim trazer de volta o formato mais amedrontador dos primeiros títulos, uma tentativa que funcionou perfeitamente, pois gostando ou não do formato recente em terceira pessoa, o que é indiscutível é que o resultado final aqui é extremamente assustador e intimista, e consegue sem dúvida arremeter diretamente aos primeiros títulos da franquia.

Porém ainda era importante entender que apesar das drásticas mudanças, a série ainda havia conseguido manter uma certa unidade na obra até aqui, e era preciso encontrar essas características chaves em que a série se manteve firme desde o princípio para que o jogo pudesse ser bem sucedido. A Capcom conseguiu não somente identificar, como aplicar essas características chaves ao novo formato de gameplay, alterando apenas o que era necessário para que se encaixasse na experiência sombria que havia sido planejada.

Nesses pontos chaves enquadram-se: personagens marcantes, gerenciamento de recursos, arsenal variado porém com munição limitada, exploração de cenários, quebra-cabeças, portas com chaves “tematizadas”, itens combináveis, controle da saúde do protagonista através de flatlines coloridas, ervas como itens de cura, e talvez o mais importante, a presença dos headshots críticos que explodem a cabeça dos inimigos, que são um prazer a parte. Infelizmente, alguns detalhes tiveram que ser removidos para combinar com a experiência mais minimalista, talvez a mais marcante de todas é a falta das rocket launchers, que eram sempre um último recurso válido pra quando a coisa realmente apertava.

Uma novidade a ser ressaltada no gameplay é a estratégia de ter inimigos de certa forma mais “fixos” durante quase todo o jogo. Se pararmos para analisar filmes de terror, mais especificamente os atos finais deles, não é difícil ressaltar algo que todos eles tem em comum, a aparente invencibilidade da ameaça principal, seja ela um psicopata, uma criatura do espaço ou uma cobra gigante, a figura antagonista sempre teima em voltar a vida, e te assustar sempre uma vez mais.

A tradução que Resident Evil faz desse conceito para o jogo é brilhante. Por diversas vezes ao se encontrar com inimigos, você não estará buscando uma forma de matá-los, mas sim buscando desesperadamente uma maneira de sobreviver a eles, por mais que você se prepare, e monte um verdadeiro arsenal, as ameaças sempre parecem verdadeiramente superiores, o que cria uma sensação de perigo real e desesperador.

Com relação ao enredo, o título novamente acerta em cheio ao seguir a regra do “menos é mais”, pois avaliando a evolução dos jogos da franquia, é possível notar uma lógica que estava prestes a se tornar prejudicial, o aumento constante da escala. Cada vez mais as ameaças biológicas se tornavam maiores, atingindo áreas cada vez maiores, e necessitando de mais personagens protagonistas para resolver a bagunça. Nesse quesito, nem é possível dizer que Resident Evil VII volta às origens da série, pois vai ainda mais fundo, colocando um único civil diante de uma ameaça que se apresenta da forma mais simples possível, uma família de maníacos psicopatas sequestrando estranhos numa zona rural do estado da Louisiana.

Em busca de encontrar Mia, sua esposa desaparecida há anos, o protagonista Ethan Winters é levado por uma pista à macabra propriedade da família Baker, onde sua presença irá desencadear eventos dignos de filmes de terror, e é claro dar início a uma terrível busca por sobrevivência, e mais importante, pela verdade escondida por essa família bizarra.

Infelizmente apesar de todo o mérito ressaltado até aqui, não podemos deixar de lado também alguns erros cometidos. As batalhas contra chefes acabam sendo pouco inspiradas, talvez pelo uso da câmera em primeira pessoa, que requer muita criatividade para funcionar num contexto de batalha de chefes, e infelizmente deixa a desejar já numa certa altura do jogo em que você precisa lidar com as ameaças de uma forma mais física, por assim dizer.

A falta dos eventos de ação rápida e as mecânicas de cobertura acabam por resumir certos momentos épicos para um simples tiro ao alvo. Os quebra-cabeças também deixam um pouco a desejar se comparados a alguns bem mais complexos vistos em títulos anteriores, e por mais que os personagens sejam interessantes e o trabalho de dublagem seja excelente, o uso excessivo das ligações telefônicas faz com que quase não se tenha contato visual com outros personagens.

No contexto geral o que é preciso dizer é que Resident Evil VII é um exemplo a ser seguido, e deve inspirar tantas produtoras que buscam renovar suas franquias atuais, ou até mesmo trazer de volta franquias já esquecidas. A inovação aliada ao respeito pelo original são uma fórmula que apesar de não deixar simples a tarefa, faz dela possível, e permite a nós, fãs, termos momentos tão deliciosos que misturam medo e alegria, nostalgia e descoberta, saudade e esperança de futuro. Resident Evil está de volta, e independente das discussões que possam surgir, definitivamente voltou pra ficar.

  • Este review de Resident Evil VII foi feito no Playstation 4 com uma cópia do game enviada para nós pela Capcom.
É bem verdade que todos nós gostamos de uma boa novidade, pedimos sempre para que as empresas criadoras de jogos tragam novas formas de jogar, novas experiências para as telas. Porém em contrapartida, também somos conservadores diante de tudo que é apresentado de novo para as franquias que já são velhas conhecidas, em especial aquelas das quais nos consideramos fãs, pois como fãs, nos sentimos um tanto quanto donos daquela obra que tanto amamos. Sendo assim, a renovação de franquias no mundo dos games se tornou uma questão muito complicada, apesar de ser extremamente saudável para franquias duradouras serem capazes de se reinventar, é uma missão quase impossível obter sucesso em algo do gênero, talvez até mais difícil do que emplacar uma franquia totalmente nova. Por conta de toda essa dificuldade, é preciso exaltar sem economia de elogios quando uma franquia consegue ser bem sucedida nessa empreitada, como é o caso de Resident Evil VII. Apesar da controversa expectativa que dividia fãs durante todo o trabalho de marketing antes do lançamento, o título consegue atingir o ponto chave do sucesso nesse cenário: ser completamente novo sem abandonar as raízes da franquia e se firmando como um recomeço válido, deixando a porta aberta para possíveis continuações. Não dá para dizer, é claro, que nada se perde nesse processo de renovação, pois para que o novo se estabeleça, também é preciso abrir mão de algumas coisas que provavelmente não se encaixariam, mas o mais importante é que o produto final seja bom o suficiente para que essas perdas possam valer a pena. O gameplay da franquia Resident Evil já sofrera diversas mudanças ao longo da série, mas as mais marcantes e polêmicas entre os fãs até então são as mudanças no posicionamento de câmera, que eram fixas em cenário nos primeiros títulos, e tornaram-se mais flexíveis ao acompanhar o protagonista na visão em terceira pessoa que é mais comum nos títulos atuais. Em decorrência dessa mudança na câmera, os títulos mais recentes acabaram tendo um aspecto muito mais voltado para a ação do que para o terror, culminando no último título numerado da série, Resident Evil 6, que não perde em nada em sequências de ação para jogos do gênero como Uncharted. Muitos fãs da série inclusive reclamavam dessa mudança, que teria descaracterizado a série como um survival horror genuíno. Resident Evil VII aposta então em mais uma grande virada para a série, fazendo uso da câmera em primeira pessoa, buscando assim trazer de volta o formato mais amedrontador dos primeiros títulos, uma tentativa que funcionou perfeitamente, pois gostando ou não do formato recente em terceira pessoa, o que é indiscutível é que o resultado final aqui é extremamente assustador e intimista, e consegue sem dúvida arremeter diretamente aos primeiros títulos da franquia. Porém ainda era importante entender que apesar das drásticas mudanças, a série ainda havia conseguido manter uma certa unidade na obra até aqui, e era preciso encontrar essas características chaves em que a série se manteve firme desde o princípio…

9

Fantástico!

Veredito Final

Com uma fórmula que respeita o original apesar de apresentar uma experiência totalmente nova, Resident Evil VII é um marco para a franquia, tornando-se um novo início bastante empolgante. Com uma mecânica de gameplay totalmente nova e com câmera em primeira pessoa, o jogo consegue adaptar-se perfeitamente às diversas características marcantes dos títulos anteriores. O enredo acerta ao apostar na tática do "menos é mais" criando um cenário em escala menor, porém com uma história bem contada e um mistério bastante instigante. Resident Evil está de volta, e com certeza veio para ficar!

Nota

9

9

Redator da SuperGamePlay, escritor, quadrinista, apaixonado por games desde a primeira vez que viu um Mega Drive. Pode não fazer todas as quests secundárias mas vai avaliar cautelosamente a paleta de cores do menu inicial. Um grande filósofo de banheiro que sonha com o dia em que nunca mais precisará dormir.