Review – Final Fantasy XV – O rei está de volta ao trono

16 de dezembro de 2016

Dez anos é uma eternidade no mundo dos games e um jogo que tenha passado por este estresse tem chance enorme de não chegar da forma como planejado. O problema é intensificado ainda mais quando se trata de Final Fantasy, a mais adorada e famosa série de RPGs japoneses. O game que inicialmente se passaria no mesmo universo sem graça da Fabula Nova Crystallis, passou por inúmeras mudanças desde então, sendo lançado como Final Fantasy XV na atual geração. Felizmente, a década de desenvolvimento foi positiva e sinto um alívio enorme em dizer que o mais novo game da franquia é excelente.

Em Final Fantasy XV, acompanhamos o príncipe Noctis, herdeiro do trono do reino de Lucis que se encontra em guerra com o império militar de Niflheim. Nosso protagonista parte em uma jornada com três amigos (Gladiolus, Ignis e Prompto) para concretizar seu casamento com a oráculo Lunafreya do reino de Tenebrae. A aventura, que de início parece ser uma “despedida de solteiro”, acaba se tornando uma situação de vida ou morte para os quatro heróis e para o reino de Lucis.

Confesso que desde o anúncio de Final Fantasy XV, fiquei bastante incomodado com o fato do game nos limitar somente a quatro personagens principais e todos homens. Chamei os quatro de “boy band” por diversas vezes em nosso podcast e até então não entendia a opção da Square por este elenco, já que a série Final Fantasy sempre foi muito variada em termos de personagens jogáveis. Porém, fico feliz em dizer que eu estava enganado e o game faz um trabalho fantástico em desenvolver seu elenco principal, mostrando o relacionamento e respeito que cada um tem pelo outro, independente de Noctis ser o príncipe herdeiro e Gladiolus, Ignis e Prompto seus guarda-costas.

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Este relacionamento é apresentado com diálogos divertidos, zoeiras, discussões sérias e até alguns quests paralelos que colocam Noctis com um deles separadamente. O fato de Gladiolus, Ignis e Prompto terem personalidades bem clichês e uma dublagem que exageram suas características não me incomodaram e ao final das minhas mais de sessenta horas com o jogo, eu estava completamente envolvido com a “boy band”, suas aventuras e seus dramas.

Apesar de não controlarmos os companheiros de Noctis diretamente, é possível fazê-los usar habilidades ou ataques combinados, equipá-los com armas e acessórios, além deles possuírem skills na árvore de evolução do game. Por mais que Noctis seja extremamente poderoso (já que este tem os poderes mágicos do reino de Lucis), fica claro em vários momentos que sozinho ele jamais conseguiria atingir seu potencial e isto ajuda a reforçar a importância do relacionamento dos garotos.

Falando em gameplay, Final Fantasy XV se difere bastante do passado da franquia, já que conta com um sistema de combate de jogos de ação aonde você segura um botão para atacar, outro para defender e pode variá-los usando o direcional. Mesmo com certa simplicidade dos comandos, a Square conseguiu fazer que o combate do game seja extremamente dinâmico, complexo, divertido e principalmente bonito de se ver. Não tem como não se empolgar quando Noctis se teleporta diretamente para um inimigo ou executa uma série de combinações usando armas diferentes. O game ainda conta com diversos tipos de armas e uma árvore de skills bastante variada, que dá ainda mais dinâmica ao gameplay.

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Para os mais puristas, ainda é possível selecionar o Wait Mode, que pausa o combate e permite selecionar cada ação, de uma forma bem semelhante a um combate por turnos. Outros elementos da franquia também estão presentes no combate, como magias e invocações. Uma pena é que certas escolhas atrapalham seu uso, como o fato das magias atingirem somente em área, causando dano a seus amigos e as invocações serem semi-automáticas, aparecendo somente em condições bem específicas. O fato das invocações e magias serem absurdamente poderosas também tira a graça de usá-las.

A câmera do jogo talvez seja o meu principal problema com o gameplay. Apesar dela funcionar perfeitamente em diversos momentos – ressaltando toda a beleza do combate – em ambientes fechados ou batalhas com inimigos maiores, ela sempre se posiciona de uma forma estranha e exige que você a ajuste constantemente. Um problema frustrante, principalmente nos dungeons que são discutivelmente uma das melhores partes de Final Fantasy XV.

Porém, o mundo aberto do game é um outro ponto bastante positivo. Gráficos belíssimos acompanham paisagens desérticas, montanhosas, florestas densas, vilas, grandes cidades e cavernas. O mundo é riquíssimo, lotado de detalhes, objetos, pessoas para se interagir e inimigos dos mais variados tamanhos. As diversas opções de se locomover pelo mapa, como o carro Regalia e os Chocobos, também são utilizadas de forma muito inteligente e em nenhum momento me vi usando uma opção acima de outra. O mapa ainda é recheado de tesouros, missões paralelas, dungeons, locais de descanso e muito mais. Não é preciso dizer que Final Fantasy XV é benéfico para aqueles que tomam o tempo para explorá-lo.

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São muitas atividades adicionais como pinball, batalhas em coliseu, corridas de chocobos, centenas de quests paralelos, caçadas, pescaria e mais. Infelizmente muitos dos quests paralelos são mundanos e repetitivos, com personagens te pedindo para pegar determinados itens, ou matar um monstro. Depois de certo ponto, eles se tornam desinteressantes e o game poderia ter se beneficiado com maior variação e complexidade neste quesito. Porém, existem certos quests adicionais bastante memoráveis, o que fazem valer a pena ter pego uma pedra preciosa para o Dino pela décima vez.

O fato de você poder completar estas atividades e andar pelo vasto mundo aberto ouvindo trilhas sonoras de quase todos os jogos da série, e as inúmeras referências a elementos da franquia espalhadas pelo mapa e presente nos diálogos entre os personagens, dão um charme a mais ao game. Final Fantasy XV também conta com um dos melhores conteúdos pós-game de toda a série, com inúmeros dungeons especiais, monstros gigantescos, armas e equipamentos ultra-poderosos, carro voador e outros motivos para você querer evoluir os quatro heróis ao máximo. Deixo também meu destaque para um dungeon secreto tão frustrante e ao mesmo tempo tão fantástico, que deve entrar na lista de todo mundo como memorável.

A história de Final Fantasy XV também seria um grande destaque, já que é adulta, complexa, emotiva e envolvente, mas infelizmente nem tudo são flores. O principal problema talvez seja a forma como a narrativa é entregue a nós. São tantos buracos no roteiro que fica difícil entender por qual motivo a Square optou por não incluir mais cenas de corte. Em vários momentos da história, algo importante acontece e jamais é explorado. Muitas vezes personagens se preparam para conversar e o jogo corta para uma tela de carregamento e a frase “alguns dias depois”. Não estou pedindo que a história seja mais expositiva, já que isto também não é legal, mas existe um meio termo entre excesso de exposição e buracos.

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Este problema faz com que todo o elenco de apoio seja mal desenvolvido, a começar com a própria Luna, que deveria ser uma das personagens principais, mas seu tempo de tela é extremamente limitado e seu relacionamento com o protagonista não é explorado como deveria, jamais tendo a mesma intensidade da ligação de Noctis com seus amigos. Com exceção do vilão principal, todos os personagens de Niflheim, incluindo seu imperador, são ridiculamente mal explorados. O fato do filme Kingsglaive: Final Fantasy XV ser extremamente necessário para se entender melhor a história e apreciar certos personagens, mostra que realmente existe um problema com a narrativa do game.

O game também abandona seu mundo aberto em troca de uma narrativa mais linear da metade para frente. Apesar de isto não ter me incomodado, a decisão é curiosa e os problemas que mencionei acontecem principalmente nesta segunda parte. O decepcionante é que depois que você entende melhor a história de Final Fantasy XV e as motivações do seu vilão principal, é possível finalmente aprecia-la por completo. Mas será necessário assistir o filme, todos os episódios do anime e ler uma série de material adicional criado pela comunidade. Um ponto positivo porém, é que o jogo todo é legendado de forma muito competente em português do Brasil, a primeira vez que isto acontece na história da série.

Independente das minhas críticas sobre a história (a Square tem inclusive ouvido a comunidade e irá adicionar mais cenas em alguns capítulos), Final Fantasy XV é um excelente game e um sopro de vida para esta adorada série de RPG. Como fã da franquia desde a infância, posso dizer que se esta é a forma como serão feitos os próximos games, a Square está no caminho certo. XV pode até contar com elementos ocidentais (mundo aberto, combates ativos), mas o desenvolvimento dos seus personagens principais, o divertido gameplay e o belíssimo e rico universo tem coração e alma Final Fantasy.

  • Este review de Final Fantasy XV foi feito no PS4 com uma cópia do game enviada para nós pela Square Enix.
Dez anos é uma eternidade no mundo dos games e um jogo que tenha passado por este estresse tem chance enorme de não chegar da forma como planejado. O problema é intensificado ainda mais quando se trata de Final Fantasy, a mais adorada e famosa série de RPGs japoneses. O game que inicialmente se passaria no mesmo universo sem graça da Fabula Nova Crystallis, passou por inúmeras mudanças desde então, sendo lançado como Final Fantasy XV na atual geração. Felizmente, a década de desenvolvimento foi positiva e sinto um alívio enorme em dizer que o mais novo game da franquia é excelente. Em Final Fantasy XV, acompanhamos o príncipe Noctis, herdeiro do trono do reino de Lucis que se encontra em guerra com o império militar de Niflheim. Nosso protagonista parte em uma jornada com três amigos (Gladiolus, Ignis e Prompto) para concretizar seu casamento com a oráculo Lunafreya do reino de Tenebrae. A aventura, que de início parece ser uma "despedida de solteiro", acaba se tornando uma situação de vida ou morte para os quatro heróis e para o reino de Lucis. Confesso que desde o anúncio de Final Fantasy XV, fiquei bastante incomodado com o fato do game nos limitar somente a quatro personagens principais e todos homens. Chamei os quatro de "boy band" por diversas vezes em nosso podcast e até então não entendia a opção da Square por este elenco, já que a série Final Fantasy sempre foi muito variada em termos de personagens jogáveis. Porém, fico feliz em dizer que eu estava enganado e o game faz um trabalho fantástico em desenvolver seu elenco principal, mostrando o relacionamento e respeito que cada um tem pelo outro, independente de Noctis ser o príncipe herdeiro e Gladiolus, Ignis e Prompto seus guarda-costas. Este relacionamento é apresentado com diálogos divertidos, zoeiras, discussões sérias e até alguns quests paralelos que colocam Noctis com um deles separadamente. O fato de Gladiolus, Ignis e Prompto terem personalidades bem clichês e uma dublagem que exageram suas características não me incomodaram e ao final das minhas mais de sessenta horas com o jogo, eu estava completamente envolvido com a "boy band", suas aventuras e seus dramas. Apesar de não controlarmos os companheiros de Noctis diretamente, é possível fazê-los usar habilidades ou ataques combinados, equipá-los com armas e acessórios, além deles possuírem skills na árvore de evolução do game. Por mais que Noctis seja extremamente poderoso (já que este tem os poderes mágicos do reino de Lucis), fica claro em vários momentos que sozinho ele jamais conseguiria atingir seu potencial e isto ajuda a reforçar a importância do relacionamento dos garotos. Falando em gameplay, Final Fantasy XV se difere bastante do passado da franquia, já que conta com um sistema de combate de jogos de ação aonde você segura um botão para atacar, outro para defender e pode variá-los usando o direcional. Mesmo com certa simplicidade dos comandos, a Square conseguiu fazer que o combate do game seja extremamente dinâmico, complexo, divertido e principalmente bonito de se ver.…

9

Fantástico!

Veredito Final

Os dez anos de desenvolvimento não foram prejudiciais a Final Fantasy XV e sinto um prazer enorme em dizer que o game é o sopro de vida que a adorada franquia precisava. Com um gameplay revigorante e divertido, um mundo aberto riquíssimo e repleto de atividades, e uma história emotiva, dando foco no companheirismo e irmandade de seus quatro personagens principais, fazem com que FF XV seja memorável. Talvez seu principal problema seja a forma como a história é contada, cheia de saltos no roteiro e sem desenvolver completamente seu elenco de apoio. Mas o jogo da Square consegue sombrear estes problemas com um pós-game glorioso, gráficos invejáveis, trilha sonora e apresentação espetacular, e um universo que tem coração e alma Final Fantasy. O rei dos RPGs japoneses está de volta.

Nota
9

Co-fundador e editor da SuperGamePlay. Fanático por games, já quebrou diversos controles jogando Decatlhon no Atari e passou incontáveis horas soprando cartuchos de Super Nintendo. Hoje passa o tempo livre em meio a centenas de jogos, dos mais variados estilos e plataformas.